Mulher em "conversa" de apoio emocional com a IA.
(Foto: Imagem gerada por IA.)
Existe uma pergunta que estamos fazendo da maneira errada.
Quando discutimos inteligência artificial e saúde mental, o debate costuma girar em torno da segurança do sistema, da responsabilidade das empresas ou de falhas algorítmicas. Mas talvez estejamos olhando para o lugar errado. A questão central não é se a tecnologia funciona, mas se o suporte que ela oferece equivale, de fato, a cuidado.
Essa pergunta deixou de ser futurista.
Diante da solidão contemporânea, o chatbot tornou-se mais acessível do que um psicólogo, mais disponível do que um amigo e menos constrangedor do que uma consulta presencial. O problema é que ninguém sabe exatamente quais serão as consequências disso.
Em outubro de 2025, dados divulgados pela OpenAI revelaram que 0,15% de seus mais de 800 milhões de usuários semanais mantêm conversas com indicadores explícitos de planejamento ou intenção suicida, o equivalente a aproximadamente 1,2 milhão de pessoas por semana. Isso não significa que a inteligência artificial esteja causando essas situações. Significa algo igualmente relevante: esses sistemas já se tornaram um espaço onde milhões de pessoas procuram ajuda emocional.
Ao mesmo tempo, processos judiciais nos Estados Unidos alegam que interações prolongadas com sistemas de IA contribuíram para crises emocionais, delírios e suicídios. Embora essas alegações ainda estejam sendo discutidas nos tribunais e não estabeleçam, por si só, uma relação de causa e efeito, elas lançam luz sobre uma realidade inédita.
Pela primeira vez na história, qualquer pessoa pode encontrar, a qualquer hora do dia ou da noite, um interlocutor infinitamente paciente, disposto a responder. Não importa quantas vezes a mesma pergunta seja feita, quão longa seja a conversa ou quão pesado seja o assunto.
A resposta está sempre disponível.
À primeira vista, isso parece um avanço.
E, em muitos aspectos, realmente é.
Pessoas sem acesso a apoio emocional encontram, ao menos, alguém disposto a responder. Mas o que acontece quando passamos a procurar numa máquina aquilo que antes dependia do encontro humano?
Escutar não é apenas ouvir.
Escutar também significa discordar.
Significa interromper uma ideia perigosa, desafiar uma certeza equivocada ou insistir para que alguém procure ajuda.
Os sistemas de inteligência artificial, contudo, foram desenvolvidos para responder, colaborar e manter a interação fluindo. Em termos simples, aprendem que agradar e validar o usuário tende a produzir melhores resultados do que contrariá-lo.
Para a maioria das conversas, isso é irrelevante.
Para alguém em sofrimento profundo, talvez não seja.
Os registros que hoje integram processos judiciais nos Estados Unidos não mostram máquinas cruéis. Mostram máquinas gentis. Máquinas que acolheram, responderam e permaneceram presentes quando outras presenças já não estavam disponíveis.
Isso não significa que a tecnologia seja responsável por aquelas mortes. Mas os casos revelaram uma questão que não pode mais ser ignorada.
O que acontece quando a conversa mais importante da vida de alguém ocorre com uma máquina?
Estamos diante de uma tecnologia que ocupa um espaço cada vez maior na vida emocional das pessoas sem que a sociedade tenha definido claramente seus limites, responsabilidades ou formas de supervisão.
Porque uma sociedade em que milhões de pessoas transformam uma máquina em confidente não está apenas diante de uma revolução tecnológica.
Está diante de um espelho.
É o retrato de vínculos humanos enfraquecidos, de serviços de saúde que não chegam e de uma escuta que se tornou escassa.
A máquina não criou esse vazio.
Ela foi apenas a primeira a responder quando ninguém mais respondeu.
O problema é que responder nem sempre é cuidar.
E cuidar, muitas vezes, exige a coragem de discordar.
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