Terça-feira, 21 de Julho de 2026
Entrelinhas

O minério não constrói cidades

21 jul 2026 - 16h29   atualizado às 16h34

Anne Andrea Fonseca de Andrade

O minério não constrói cidades Maquinário em área de mineração. (Foto: Arquivo/Governo do MS)

Há uma crença que acompanha toda corrida por recursos naturais: A de que a riqueza produz, por si só, desenvolvimento. A história mostra exatamente o contrário. O mundo está repleto de regiões que extraíram ouro, petróleo, carvão ou minério durante décadas e, quando o ciclo terminou, descobriram que haviam exportado riqueza sem construir desenvolvimento.

Corumbá vive hoje um dos momentos mais importantes de sua história econômica. A atividade mineral avança em ritmo acelerado. Os investimentos anunciados somam bilhões de reais. A produção projetada para os próximos anos coloca o município entre os principais polos minerais do país.

Mas existe uma pergunta que deveria ocupar o centro do debate público: o Estado está crescendo na mesma velocidade que a mineração?

Essa pergunta não se dirige às empresas. Crescer é o objetivo de qualquer empreendimento. Investir, ampliar a produção e buscar eficiência fazem parte da atividade econômica. O desafio pertence ao poder público.

Enquanto a produção avança, os números mostram um cenário que merece atenção. Segundo dados da Prefeitura de Corumbá, com base em informações da Agência Nacional de Mineração (ANM), a Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) destinada ao município caiu praticamente pela metade entre 2022 e 2025. Em 2026, a tendência permaneceu.

Ao mesmo tempo, o próprio município reconheceu não possuir acesso direto às informações fiscais detalhadas que permitam acompanhar integralmente a movimentação econômica da atividade mineral. A própria Agência Nacional de Mineração informou que não existe acordo de cooperação técnica vigente para atuação conjunta na fiscalização.

Esses fatos, por si sós, não indicam qualquer irregularidade. Revelam algo talvez mais preocupante: a capacidade das instituições públicas não evolui na mesma velocidade da transformação econômica.

É justamente nesses momentos que se mede a força de um Estado.

Uma cidade não se desenvolve porque produz muito.

Desenvolve-se quando consegue transformar uma riqueza temporária em infraestrutura permanente, educação de qualidade, diversificação econômica, inovação e oportunidades para as próximas gerações.

Essa transformação exige instituições capazes, planejamento, transparência, fiscalização, dados confiáveis e integração entre município, Estado e União. Exige instituições preparadas para acompanhar uma atividade cuja dimensão cresce ano após ano.

A pergunta já não é quanto minério será extraído.

A pergunta é quanto desenvolvimento permanecerá quando a extração terminar.

Toda jazida possui um limite físico. Esse não é um risco; é uma característica da mineração. Justamente por isso, o período de maior produção deveria ser também o período de maior planejamento. É durante o auge da riqueza que uma cidade decide como será o seu futuro quando a extração chegar ao fim.

A verdadeira medida do sucesso de um ciclo mineral não está apenas nas toneladas produzidas nem no valor exportado. Está naquilo que permanece depois que o último caminhão sair, o último embarque partir e a última licença deixar de ser necessária.

É nesse momento que a história faz sua pergunta mais difícil.

Corumbá será lembrada como uma cidade que extraiu riqueza ou como uma cidade que transformou uma oportunidade temporária em desenvolvimento permanente?

Essa resposta não será dada pelas empresas. Ela será dada pelas instituições públicas e pelas escolhas feitas agora. Porque, quando a última tonelada deixar Corumbá, já não haverá tempo para decidir o que deveria ter ficado.

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