Rio Paraguai.
(Foto: Arquivo/Ecoa)
Imagine que alguém lhe ofereça um excelente negócio.
Os benefícios são claros. O custo do transporte cai. A economia cresce. O investimento promete durar décadas. Um único comboio de barcaças faz o trabalho de 1.750 caminhões. Para quem vive no Mato Grosso do Sul e hoje só tem asfalto como opção, a proposta faz sentido.
Você assinaria imediatamente?
Talvez não. Provavelmente faria algumas perguntas antes.
Quais são os riscos? O que pode dar errado? Quem responde se as previsões não se confirmarem?
É exatamente essa situação que envolve hoje a discussão sobre a concessão da Hidrovia do Rio Paraguai.
O projeto existe. Os investimentos também. O BNDES já aprovou bilhões para construir a frota que deverá operar no rio.
As respostas, porém, continuam incompletas.
O licenciamento ambiental ainda não foi concluído. O Tribunal de Contas da União mantém o processo travado. O Ministério Público Federal abriu inquérito. E boa parte do debate técnico continua cercada por dúvidas que a própria audiência pública evidenciou.
Os investimentos chegaram antes das respostas.
Esse não é um detalhe burocrático. É a ordem das coisas.
O Rio Paraguai não atravessa uma região qualquer. Ele regula o ritmo das cheias e vazantes que sustenta o Pantanal há séculos. As rochas submersas e os bancos de areia que o projeto quer remover não estão ali por acaso. Eles fazem parte de um sistema que a ciência ainda não terminou de entender. E o Pantanal que receberá essas intervenções já perdeu quase um terço de sua área inundável nos últimos trinta anos.
Na audiência pública realizada em Corumbá na semana passada, pesquisadores alertaram para intervenções permanentes num sistema que já sofre. Lideranças indígenas foram diretas: mexer no rio significa mexer em modos de vida construídos ao longo de gerações. E um detalhe passou quase despercebido: o comitê previsto para acompanhar as obras ao longo de toda a concessão não teria cientistas nem representantes das comunidades ribeirinhas. Quem conhece o rio de perto ficaria fora da mesa.
Bons projetos não se legitimam apenas pelos benefícios que prometem. Se legitimam pela qualidade das respostas que oferecem às perguntas que provocam.
E as perguntas ainda estão no ar.
O Rio Paraguai tem séculos. A concessão, quinze anos. Os efeitos, tempo indefinido.
Antes de assinar, é preciso saber o que se está assinando.
Fontes
Audiência pública, Corumbá, jun. 2026 (Capital do Pantanal/Capital News); TCU, dez. 2025; BNDES, set. 2024; MPF, abr. 2026 (Correio do Estado); MapBiomas, set. 2021; Calheiros et al., Science of the Total Environment, 2023.
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