Quarta-feira, 27 de Maio de 2026
Entrelinhas

Menos horas, mesma conta

26 mai 2026 - 17h24   atualizado em 27/05/2026 às 07h53

Anne Andrea Fonseca de Andrade

Menos horas, mesma conta Sob a escala 6x1, trabalhadora enfrenta mais um expediente em estabelecimento comercial. (Foto: Divulgação)

Dois terços dos trabalhadores formais brasileiros já cumprem jornada de até 40 horas semanais. O dado é do Ministério do Trabalho, com base em cerca de 50 milhões de vínculos registrados no eSocial. No cômputo geral da economia, a escala 6x1 já não representa a maioria do emprego formal, e o mercado não colapsou por causa disso.

Essa informação, curiosamente, está ausente de grande parte do debate público. De um lado, quem defende o fim da escala fala em dignidade, descanso e saúde mental. Do outro, quem resiste projeta quebradeira, desemprego e explosão de custos. Os dois lados ignoram um ponto central: o mercado já começou a mudar, e o problema real está justamente onde ele ainda não conseguiu avançar.

Os trabalhadores que continuam submetidos à rotina de seis dias de trabalho para um de descanso estão concentrados no comércio, na alimentação, na hotelaria e nos serviços de saúde básica. São setores de menor margem operacional, forte dependência de mão de obra presencial e funcionamento contínuo. É exatamente aí que a conta deixa de ser simples.

Para quem fecha uma loja às dez da noite e retorna cedo na manhã seguinte, a discussão está longe de ser apenas ideológica. O desgaste é real, e os números sobre adoecimento mental confirmam o preço dessa rotina. Por outro lado, reduzir a jornada sem reduzir o salário aumenta o custo da hora trabalhada.

Um estudo do Ipea estima uma elevação média de 7,8% nesse custo para os setores mais afetados. Entidades patronais, como a CNI, contestam essa leitura e projetam perdas ainda maiores de competitividade. A divergência entre essas estimativas é, ela mesma, parte do problema: a tramitação no Congresso avança sem que exista consenso técnico mínimo.

Para as grandes empresas, parte do impacto pode ser absorvida com tecnologia e ganho de escala. Uma grande rede de farmácias, por exemplo, consegue automatizar processos e redistribuir equipes entre suas unidades. Já a farmácia de bairro depende da contratação direta de mais um funcionário para manter as portas abertas durante a semana. Quando o custo formal sobe sem que a produtividade acompanhe, o ajuste tende a migrar para a informalidade.

A experiência internacional ajuda a colocar o debate em perspectiva. Quando a França reduziu a jornada para 35 horas semanais, em 2000, o governo apostava na geração de empregos por divisão das horas. O resultado foi complexo: houve criação de vagas em alguns setores, mas também aumento de custos e perda de competitividade, o que forçou a flexibilização das regras nos anos seguintes.

Já a Alemanha, frequentemente usada como referência de jornadas curtas, alcançou esse patamar apoiada em décadas de ganho de produtividade industrial, qualificação e avanço tecnológico. Por lá, a redução da jornada foi consequência de uma economia mais eficiente, não o ponto de partida.

O Brasil, contudo, não parte do mesmo lugar. O país convive há décadas com o fantasma da baixa produtividade. Em 2024, segundo o Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da FGV IBRE, o avanço foi de tímidos 0,1%. Reduzir a jornada sem melhora consistente em educação, tecnologia e eficiência pode sufocar justamente os setores que mais empregam, e isso em um país onde quase 40% da força de trabalho já está na informalidade.

Mas a mudança não é impossível. Em 1988, a Constituição reduziu a jornada máxima semanal de 48 para 44 horas. Estudos econométricos mostram que, no curto prazo, a medida não elevou o desemprego e até aumentou o salário real por hora. O mercado se ajustou e as empresas continuaram funcionando. A questão atual, portanto, não é a viabilidade da mudança, mas o ritmo da transição e o suporte a quem terá de absorver os custos.

Há ainda um aspecto invisível nessa conta. Em 2024, o país registrou cerca de 500 mil afastamentos por doenças psicossociais relacionadas ao trabalho, segundo o Ministério da Previdência Social. O modelo atual também cobra o seu preço. Ele apenas não aparece diretamente no balanço mensal das empresas. É diluído na Previdência, no sistema de saúde e na perda de produtividade causada pelo adoecimento.

A discussão sobre a jornada de trabalho no Brasil é legítima e urgente. O que falta é precisão: definir quem paga a conta, qual o cronograma viável e quais setores precisarão de transições diferenciadas, especialmente os pequenos negócios, que não têm escala para absorver o choque sozinhos.

A tramitação da proposta avança. O consenso técnico, não.

E o trabalhador brasileiro continua esperando que alguém explique, com honestidade, como fechar essa conta.

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