Quarta-feira, 10 de Junho de 2026
Entrelinhas

O peso do prumo

23 abr 2026 - 12h01   atualizado às 12h04

Anne Andrea Fonseca de Andrade

O peso do prumo Imagem preto e branco de infraestrutura predial. (Foto: Gerado por IA)

A legitimidade da toga não está no rito, mas no peso que ela aceita carregar

 

O silêncio não é prudência. É abdicação.

Há uma diferença essencial entre o peso da autoridade e o peso da casta. A autoridade se mantém no plano comum, onde decisões exigem explicação. A casta se afasta, envolta em ritos que, com o tempo, passaram a servir mais ao distanciamento do que ao respeito. E o distanciamento cobra um preço que instituições não podem mais suportar: a irrelevância.

O sistema aprendeu a sobreviver. E isso tem um custo. Nesse percurso, a justiça ficou para trás.

Os episódios chamam atenção. O que os torna possíveis permanece.

Durante anos, a resposta institucional mais grave a desvios na magistratura afastou sem romper. A função cessava. A estrutura permanecia. A consequência não alcançava o peso do poder exercido.

Com o tempo, isso deixou de ser exceção.

A toga nunca foi feita para proteger quem a veste. Ela é um prumo.

O prumo não adorna. Ele revela.
Só cumpre sua função porque tem peso.

Quando a magistratura se protege, perde a capacidade de aferir. A régua se desloca. A gravidade muda, mesmo quando ninguém admite.

Legitimidade não se herda. Se prova e se perde no exercício.

Não é o ritual que sustenta a autoridade, mas a disposição concreta de responder por ela. Quando essa resposta não acompanha a dimensão do poder exercido, o que permanece não é confiança, mas tolerância.

Há uma mudança em curso.

A leitura recente de que a aposentadoria compulsória não se sustenta mais como sanção disciplinar retira do sistema a sua saída mais confortável. Força um reposicionamento que vinha sendo adiado.

O prumo que não pesa não mede. E o que não mede, não serve.

Há um ponto que não pode mais ser contornado:

quem decide sobre a liberdade dos outros precisa estar submetido ao mesmo peso que impõe.

Quando a Justiça deixa de responder por si, ela não se protege.

Ela se expõe.

E, ao se expor sem resposta, perde o que mais importa: a confiança.

Receba a coluna Entrelinhas no seu Whatsapp. Clique aqui para seguir o Canal do Capital do Pantanal

Leia Também

O preço da navegação
Entrelinhas

O preço da navegação

A máquina que nunca discorda
Entrelinhas

A máquina que nunca discorda

Menos horas, mesma conta
Entrelinhas

Menos horas, mesma conta

A Anatomia do Vazio
Entrelinhas

A Anatomia do Vazio

O Pantanal e a ilusão do impacto controlado
Entrelinhas

O Pantanal e a ilusão do impacto controlado

O trabalho está adoecendo o Brasil
Entrelinhas

O trabalho está adoecendo o Brasil

Uma casa emprestada
Entrelinhas

Uma casa emprestada

A engenharia da seca no Pantanal
Entrelinhas

A engenharia da seca no Pantanal

Nova face da violência escolar
Entrelinhas

Nova face da violência escolar

BR-262: A rota que não fecha
Entrelinhas

BR-262: A rota que não fecha

Mais Lidas

Vídeo mostra execução de homem com histórico por tráfico em Corumbá
desdobramentos

Vídeo mostra execução de homem com histórico por tráfico em Corumbá

Incêndio destrói casa no Cristo Redentor
Plantão

Incêndio destrói casa no Cristo Redentor

Idosa é resgatada por helicóptero após emergência no Pantanal
geral

Idosa é resgatada por helicóptero após emergência no Pantanal

PRF intercepta comboio de luxo na BR-262 em Corumbá
Polícia

PRF intercepta comboio de luxo na BR-262 em Corumbá