Quinta-feira, 21 de Maio de 2026
Entrelinhas

O peso do prumo

23 abr 2026 - 12h01   atualizado às 12h04

Anne Andrea Fonseca de Andrade

O peso do prumo Imagem preto e branco de infraestrutura predial. (Foto: Gerado por IA)

A legitimidade da toga não está no rito, mas no peso que ela aceita carregar

 

O silêncio não é prudência. É abdicação.

Há uma diferença essencial entre o peso da autoridade e o peso da casta. A autoridade se mantém no plano comum, onde decisões exigem explicação. A casta se afasta, envolta em ritos que, com o tempo, passaram a servir mais ao distanciamento do que ao respeito. E o distanciamento cobra um preço que instituições não podem mais suportar: a irrelevância.

O sistema aprendeu a sobreviver. E isso tem um custo. Nesse percurso, a justiça ficou para trás.

Os episódios chamam atenção. O que os torna possíveis permanece.

Durante anos, a resposta institucional mais grave a desvios na magistratura afastou sem romper. A função cessava. A estrutura permanecia. A consequência não alcançava o peso do poder exercido.

Com o tempo, isso deixou de ser exceção.

A toga nunca foi feita para proteger quem a veste. Ela é um prumo.

O prumo não adorna. Ele revela.
Só cumpre sua função porque tem peso.

Quando a magistratura se protege, perde a capacidade de aferir. A régua se desloca. A gravidade muda, mesmo quando ninguém admite.

Legitimidade não se herda. Se prova e se perde no exercício.

Não é o ritual que sustenta a autoridade, mas a disposição concreta de responder por ela. Quando essa resposta não acompanha a dimensão do poder exercido, o que permanece não é confiança, mas tolerância.

Há uma mudança em curso.

A leitura recente de que a aposentadoria compulsória não se sustenta mais como sanção disciplinar retira do sistema a sua saída mais confortável. Força um reposicionamento que vinha sendo adiado.

O prumo que não pesa não mede. E o que não mede, não serve.

Há um ponto que não pode mais ser contornado:

quem decide sobre a liberdade dos outros precisa estar submetido ao mesmo peso que impõe.

Quando a Justiça deixa de responder por si, ela não se protege.

Ela se expõe.

E, ao se expor sem resposta, perde o que mais importa: a confiança.

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