Estudante navegando nas redes sociais no corredor da escola.
(Foto: Gerada por IA)
HUMILHAÇÃO EM REDE EXPÕE NOVA FACE DA VIOLÊNCIA ESCOLAR
Deepfakes sexuais, exposição de meninas e reação tardia das escolas mostram que a crueldade digital já não pode ser tratada como mera indisciplina
Em quatro meses, o número de vítimas de deepfakes sexuais em ambiente escolar mais que dobrou no Brasil. Em fevereiro de 2026, a SaferNet Brasil identificou 173 vítimas. Em outubro de 2025, um levantamento preliminar da mesma organização contabilizava ao menos 72. O salto impressiona pela escala, mas sobretudo pela velocidade.
O dado mostra que esse tipo de agressão, que combina humilhação, sexualização e tecnologia, não está sendo contido. Está se espalhando diante de protocolos frágeis e resposta pedagógica tardia. Não se trata mais de um desvio isolado, de um excesso juvenil ou de uma “brincadeira” que saiu do controle. Trata-se de uma forma de violência que encontrou no ambiente digital um meio eficiente de circular, se multiplicar e prolongar danos.
A violência entre adolescentes mudou de forma, mas não de lógica. Se antes o constrangimento se limitava ao corredor ou à sala de aula, hoje ele circula em grupos fechados e montagens que deixam marcas mais duradouras do que muitos episódios presenciais. O que aparece na tela como piada esconde um mecanismo antigo: a desumanização do outro como forma de pertencimento e poder.
Quando meninas são expostas ou reduzidas a insultos, o problema deixa de ser apenas disciplinar. A pergunta mais incômoda já não é quem começou. É outra: em que ambiente esse tipo de violência passou a parecer aceitável?
Especialistas em convivência escolar apontam que a violência digital entre estudantes não surge do nada. Ela prospera onde há tolerância ao deboche, ausência de intervenção precoce e banalização de pequenas agressões. A plateia não é detalhe. Quem compartilha, incentiva ou se cala ajuda a transformar a agressão em norma coletiva. Quando a exposição é sexualizada, a escola já não lida apenas com indisciplina juvenil. Lida com a reprodução precoce de uma cultura de violência de gênero, em que o corpo feminino é tratado como alvo, ranking e entretenimento.
Mas as estatísticas são apenas a superfície. Em cidades pequenas e médias, a subnotificação costuma ser regra. Meninas não denunciam porque sabem que o isolamento social pode ser o preço da queixa. Famílias evitam tornar o caso público por medo do constrangimento prolongado. E, não raro, a gestão escolar tenta resolver o episódio de modo a preservar a rotina institucional mais do que o direito de quem foi exposta.
Os casos identificados alcançam diferentes regiões do país. Isso coloca o problema geograficamente perto de quem lê e reforça uma evidência incômoda: muitas vezes, o que não vira estatística não é o que não existe, mas o que nunca chegou a ser enfrentado de modo aberto.
Respostas improvisadas não bastam. Suspensões pontuais e reuniões emergenciais podem ser necessárias, mas são insuficientes quando o episódio é tratado como exceção. O que falta não é apenas reação. É protocolo. É letramento digital. É mediação séria de conflitos. É formação para reconhecer, interromper e encaminhar esse tipo de violência antes que o dano se torne irreversível.
A violência não começa quando o caso explode. Começa no comentário não corrigido, na misoginia tratada como irreverência, na omissão adulta diante de sinais que já anunciavam a deterioração do ambiente. O desafio não é apenas reagir ao escândalo. É alcançar o que nunca vira manchete. Porque, muitas vezes, o silêncio não indica paz. Indica apenas que a violência encontrou um modo eficiente de se esconder.
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