Lupa investigando as unhas cuidadosamente.
(Foto: Criado por IA)
A discussão começou nas unhas.
Em vídeos que circularam nas redes sociais, um influenciador criticou mulheres que fazem a manutenção das unhas apenas uma vez por mês. Segundo ele, o correto seria a cada quinze ou vinte dias. No mesmo tom, afirmou que mulheres com unhas ou cílios sem manutenção seriam “relaxadas” e chegou a compará-las a “Peppa Pig porca”.
A expressão viralizou.
Mais reveladora, porém, foi a reação.
Nos comentários, muitas pessoas passaram a concordar. Algumas reforçaram que a falta de manutenção seria sinal de descuido ou até de falta de higiene.
Quando um rótulo depreciativo começa a circular publicamente, instala-se um padrão de julgamento. A partir daquele momento, qualquer mulher pode ser enquadrada naquele estereótipo. Basta alguém olhar para a mão dela, para o cabelo ou para os cílios.
Sem saber se trabalha o dia inteiro, se cuida de filhos ou se enfrenta dificuldades financeiras.
Sem saber absolutamente nada sobre a vida daquela mulher.
O julgamento já está pronto.
Esse tipo de lógica transforma um detalhe estético em critério moral e é assim que muitos processos de discriminação começam.
Cuidar da aparência é uma escolha legítima. O problema começa quando esse cuidado passa a ser usado como medida do valor de uma pessoa.
A cobrança sobre a aparência feminina não é algo novo. A ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, costuma explicar essa desigualdade histórica com uma metáfora simples. Os homens receberam sapatos confortáveis para correr pelo mundo e aprenderam a tocar violão, instrumento que podem levar para qualquer lugar. As mulheres receberam salto alto e aprenderam a tocar piano, que fica dentro de casa.
A imagem resume séculos de construção cultural.
Durante muito tempo, os homens foram preparados para ocupar o espaço público, enquanto as mulheres eram ensinadas a cumprir papéis ligados à aparência, ao comportamento e à observação constante.
Talvez por isso ainda exista tanta vigilância sobre o corpo feminino.
Unhas feitas.
Cílios com manutenção.
Cabelo impecável.
Como se o valor de uma mulher pudesse ser medido por esses detalhes.
A internet começou discutindo unhas. O que o episódio revela, no entanto, é algo anterior e mais persistente.
A pergunta que fica não é sobre a manutenção das unhas de ninguém.
É sobre quando deixaremos de achar que temos o direito de fazê-la.
Fontes: 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2025), Fórum Brasileiro de Segurança Pública; discurso da ministra Cármen Lúcia no Supremo Tribunal Federal no Dia Internacional da Mulher.
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