Segunda-feira, 12 de Outubro de 2026
Entrelinhas

O trabalho está adoecendo o Brasil

06 mai 2026 - 13h41   atualizado às 13h44

Anne Andrea Fonseca de Andrade

O trabalho está adoecendo o Brasil Mulher com visível cansaço mental em ambiente de trabalho. (Foto: Girada por IA)

Meio milhão de afastamentos depois, a lei mudou.

Quase meio milhão de brasileiros foram afastados do trabalho por ansiedade, depressão ou esgotamento em 2024. Um aumento de 68% em relação ao ano anterior. O maior número registrado em uma década.

Não foi coincidência. Foi consequência.

Durante anos, o mercado de trabalho normalizou o que deveria ser inaceitável: metas impossíveis, jornadas sem limite, pressão constante disfarçada de “cultura de alta performance”. O corpo foi aguentando. A mente, nem sempre.

Agora a legislação começa a responder. A atualização da NR-1, principal norma de segurança do trabalho no país, passou a exigir que empresas de todos os portes identifiquem e gerenciem os chamados riscos psicossociais: fatores ligados à forma como o trabalho é organizado e que podem adoecer quem o executa. O prazo para adequação termina em maio de 2026.

A mudança não transforma qualquer pressão em crime. Nem abre caminho automático para processos trabalhistas. A pergunta deixa de ser apenas por que o trabalhador adoeceu e passa a incluir o ambiente em que ele trabalhou.

Empresas que já trabalham com metas razoáveis, ambientes de respeito e gestão transparente têm pouco a temer e muito a ganhar.

Mas, para as que ignoram o problema, o custo começou a chegar.

O Banco Mundial estima que os prejuízos associados à saúde mental custam ao Brasil o equivalente a 4,7% do PIB ao ano, entre afastamentos, queda de produtividade e passivos trabalhistas. Não é apenas um problema de recursos humanos. É um problema econômico.

E também é pessoal.

Porque quase todo mundo conhece alguém que já chorou antes de começar o expediente. Que perdeu o sono. Que passou a achar normal sobreviver cansado.

Durante muito tempo, isso foi chamado de rotina.

Pela primeira vez, o ambiente também começa a responder pelo desgaste que produz.

Fontes: Ministério do Trabalho e Emprego; NR-1; Banco Mundial; dados de afastamentos do INSS divulgados em 2024.

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