Rodovia BR 262, em Corumbá.
(Foto: Divulgação)
Uma adolescente de 16 anos. Um boliviano com pipoca. Quatro presos em três horas. E a rota continua aberta.
Nos últimos dias, a BR-262 apareceu pelo menos seis vezes nos noticiários de Corumbá. Este texto parte dessa repetição.
Na madrugada de sábado, um cão farejador parou diante de uma mala em um ônibus na BR-262. Dentro, 8,5 quilos de skunk embalados em fita adesiva. A pessoa que carregava tinha 16 anos, estava sozinha e não sabia o nome de quem a havia contratado.
Dias antes, na mesma rodovia, um caminhão com 182 quilos de cocaína em compartimentos ocultos. Um boliviano com 33 quilos escondidos entre pacotes de pipoca. Duas abordagens separadas da PRF, quatro presos, mais de 73 quilos apreendidos em menos de três horas.
Rotas idênticas. Veículos idênticos. Padrão idêntico.
O dado costuma ser lido como sinal de eficiência.
Mas diz outra coisa.
Quando apreensões de grande porte se tornam frequentes ao longo das semanas, deixam de ser resultado da fiscalização. Passam a indicar a regularidade do fluxo. Segundo a Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul, o DOF apreendeu quase 200 toneladas de drogas no estado em 2025, com crescimento de 30% em relação ao ano anterior. Trata-se da segunda maior marca histórica da unidade.
E a rota continuou aberta.
O que aparece nas operações é sempre a mesma figura: o transportador. O jovem de 18 anos. O passageiro boliviano. O motorista que diz não saber o que levava. A adolescente que não sabia o nome de quem a havia contratado.
Quem carrega.
Nunca quem organiza.
Em 2023, segundo o Relatório Mundial sobre Drogas da ONU, as apreensões globais de cocaína atingiram recorde histórico, com 2.275 toneladas interceptadas. No mesmo ano, a produção mundial foi de 3.708 toneladas. Isso significa que, mesmo no melhor ano da história do combate ao tráfico, mais de um terço da produção chegou ao destino.
Apreender mais, nesse modelo, não reduz o problema.
Apenas o documenta melhor.
Corumbá está na fronteira. Não como metáfora, mas como fato geográfico e político. O que entra por essa região abastece o país e parte segue para a Europa pelo Porto de Santos.
A pergunta não é se as apreensões aumentaram.
É por que razão a rota continua aberta, e quem não aparece na cena das apreensões.
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