Segunda-feira, 12 de Outubro de 2026
Entrelinhas

O rio que não reconhece fronteiras

03 jul 2026 - 13h45   atualizado às 13h52

Anne Andrea Fonseca de Andrade

O rio que não reconhece fronteiras Barcaças na hidrovia Paraguai. (Foto: Gerada por IA)

Em 16 de junho, Santa Cruz de la Sierra sediou o II Encontro Trinacional do Rio Paraguai, organizado pela Câmara de Exportadores, Logística e Promoção de Investimentos de Santa Cruz (Cadex). Autoridades públicas, representantes diplomáticos, organismos técnicos e empresários dos três países reuniram-se para discutir o futuro da hidrovia. O encontro foi além da navegação. A pauta incluiu integração logística, modernização portuária e propostas para garantir condições permanentes de operação ao longo do sistema hidroviário.

Durante a cobertura do encontro, o jornal boliviano El Deber informou que especialistas do setor hidroviário do Brasil e do Paraguai estimaram entre 12 e 15 milhões de dólares o investimento inicial necessário para assegurar a navegabilidade da Hidrovia Paraguai–Paraná ao longo de todo o ano, com licitações projetadas para 2027. Entre os pontos que poderão ser beneficiados por essas intervenções estão terminais bolivianos como Puerto Busch, Gravetal, Puerto Jennefer e o Canal do Tamengo, ligação estratégica entre a Baía Cáceres e o Rio Paraguai.

Até aqui, o debate brasileiro concentrou-se na pergunta sobre a dragagem.

Em Santa Cruz, a pergunta já era outra: como operar a hidrovia durante os 365 dias do ano.

O objetivo declarado é ampliar a eficiência logística e reduzir custos. Se, nesse processo, as soluções também contribuírem para reduzir impactos ambientais, tanto melhor.

Mas é justamente nesse ponto que surgem perguntas de interesse público.

Qual é o alcance dessas propostas sobre a Baía Cáceres e o Canal do Tamengo? Existem estudos específicos avaliando seus possíveis efeitos sobre o Pantanal brasileiro antes que essas alternativas técnicas se transformem em projetos?

Essas perguntas não representam resistência ao desenvolvimento.

Representam uma exigência de governança.

A Baía Cáceres, o Canal do Tamengo e o Rio Paraguai formam um sistema hídrico conectado. A água que percorre esse sistema não reconhece fronteiras políticas. Decisões tomadas em um trecho podem produzir reflexos além do território em que são executadas.

O debate deixou de ser apenas sobre engenharia. Tornou-se também uma discussão sobre governança, cooperação internacional e proteção de um patrimônio natural compartilhado. Quanto maior a importância estratégica desse corredor hidroviário, maior deve ser o compromisso com a transparência.

Porque obras alteram rios. Mas decisões alteram o futuro.

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