Participantes lotaram audiência sobre o futuro da Hidrovia do Paraguai.
(Foto: Giovanni Coletti)
A concessão da Hidrovia do Rio Paraguai voltou ao centro do debate em Corumbá e encontrou resistência entre representantes de diversos setores da sociedade. Reunidos em audiência pública nesta sexta-feira (5), pesquisadores, ambientalistas, lideranças indígenas e moradores da região defenderam a paralisação do processo até que sejam apresentados estudos considerados mais completos sobre os possíveis efeitos da iniciativa.
A principal preocupação manifestada durante o encontro é que as obras previstas para garantir a passagem de embarcações durante todo o ano provoquem mudanças permanentes em um dos sistemas naturais mais importantes do Pantanal.
Ao longo das discussões, especialistas alertaram que pontos do Rio Paraguai hoje vistos como obstáculos à navegação cumprem funções naturais fundamentais para o comportamento das águas na planície pantaneira. A avaliação é de que intervenções nesses locais podem gerar reflexos ambientais em larga escala.
Segundo a coordenadora científica da SOS Pantanal, Stefani Oliveira, o projeto prevê ações contínuas em trechos sensíveis do rio, incluindo áreas onde existem bancos de areia, curvas e formações rochosas.
“Esses estreitamentos funcionam como verdadeiros funis naturais que desaceleram a correnteza e ajudam a manter o efeito de remanso, essencial para o ciclo de cheias e vazantes do Pantanal”, explicou.
A pesquisadora também demonstrou preocupação com a previsão de dragagens e outras intervenções destinadas a manter a profundidade exigida para a operação da hidrovia.
“A dragagem aumenta a vazão do rio. Quando se acelera esse fluxo, há impactos sobre áreas alagáveis, habitats aquáticos, biodiversidade e também sobre as comunidades ribeirinhas que dependem diretamente do comportamento natural das águas”, alertou.
Outro tema que ganhou espaço no debate foi a influência das mudanças climáticas sobre o futuro do Pantanal. Participantes argumentaram que a região enfrenta transformações cada vez mais frequentes em seu regime hídrico, cenário que deveria ser considerado antes da execução de qualquer obra de grande porte.
“A crise climática precisa fazer parte dessa discussão. Estamos planejando intervenções permanentes em um sistema que já está sofrendo alterações importantes no regime hídrico. Isso aumenta as incertezas e os riscos para o futuro do Pantanal”, afirmou Stefani.
Licenciamento e investimentos entram na discussão
Representando a Environmental Justice Foundation (EJF) no Brasil, Luciana Leite afirmou que o debate não pode se limitar ao trecho previsto para concessão. Segundo ela, a hidrovia integra um corredor logístico de aproximadamente 3,7 mil quilômetros e seus efeitos precisam ser analisados em toda a extensão da bacia.
Durante sua participação, a ambientalista criticou o avanço de investimentos voltados à estrutura de transporte antes da conclusão das etapas de licenciamento ambiental.
“O BNDES já concedeu cerca de R$ 4 bilhões para financiamento da compra de empurradores e balsas destinados à hidrovia do Paraguai, enquanto o projeto ainda não passou por todas as etapas do licenciamento ambiental”, afirmou.
Ela também questionou a ausência de representantes da comunidade científica, organizações ambientalistas e populações tradicionais no comitê previsto para acompanhar futuras intervenções no rio.
Comunidades tradicionais manifestam preocupação
Representando o povo guató, o professor de Geografia Anísio afirmou que a discussão ultrapassa questões econômicas e afeta diretamente populações que dependem do equilíbrio ambiental para manter seus modos de vida.
Segundo ele, alterações na dinâmica natural do Rio Paraguai podem atingir territórios indígenas, áreas de pesca e regiões tradicionalmente influenciadas pelo ciclo de cheias e vazantes.
Ao final do encontro, foi reforçada a defesa pela suspensão do processo de concessão até que novos levantamentos técnicos sejam realizados. A audiência foi proposta pelo deputado estadual Pedro Kemp, que informou o encaminhamento de um relatório ao Governo Federal, ao Ibama e ao Ministério do Meio Ambiente solicitando a interrupção da tramitação do projeto.
“Esse é um falso dilema. Precisamos buscar o equilíbrio entre desenvolvimento e preservação ambiental, avaliando com responsabilidade os impactos que esse projeto poderá causar às comunidades e ao Pantanal”, declarou.
*Com informações da Agência ALEMS.
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