Brigadista atua no combate ao fogo em área de vegetação queimada, em meio à fumaça.
(Foto: Instituto Homem Pantaneiro (IHP))
A articulação para enfrentar os incêndios no Pantanal ganhou novo capítulo com a proposta de uma cooperação direta entre Brasil e Bolívia. A ideia é criar um mecanismo conjunto de prevenção e combate ao fogo na região de fronteira, onde os impactos ambientais não respeitam limites territoriais.
O movimento partiu do presidente do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), Angelo Rabelo, que levou ao Governo Federal a sugestão de formalizar um acordo binacional inspirado em experiências internacionais, como a parceria entre Espanha e Portugal no enfrentamento de incêndios florestais.
A iniciativa passou a ter apoio político após o senador Nelsinho Trad (PSD-MS), presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, encaminhar ofícios aos ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores) e João Paulo Capobianco (Meio Ambiente e Mudança do Clima) na terça-feira (07/04/2026).
“Proteger o Pantanal é proteger vidas, culturas e o futuro das próximas gerações. Não podemos agir de forma isolada diante de um problema que é comum. A união entre Brasil e Bolívia é um passo fundamental nessa missão”, assegurou o senador Nelsinho Trad.
Fogo atravessa fronteiras
O alerta do IHP chama atenção para o avanço dos grandes incêndios registrados principalmente entre 2020 e 2024. Mudanças climáticas, redução das chuvas e a diminuição da lâmina d’água no Pantanal aparecem entre os principais fatores que agravam o cenário, atingindo tanto o lado brasileiro quanto o boliviano.
Em alguns episódios, o fogo começou em um país e atravessou a fronteira, atingindo áreas sensíveis como a Serra do Amolar, em Mato Grosso do Sul, e o Parque Nacional boliviano San Matias, na Província de Santa Cruz, região vizinha a Corumbá (MS). O resultado tem sido a pressão direta sobre a biodiversidade pantaneira dos dois lados.
Segundo Angelo Rabelo, o Parque San Matias é uma área protegida, mas de difícil acesso e com baixa presença de equipes de fiscalização. No lado brasileiro, a chamada Rede Amolar funciona como corredor de biodiversidade, abrigando cerca de 200 espécies de animais, das quais 10 estão ameaçadas, além de comunidades tradicionais ao longo do rio Paraguai.
“Para além dos impactos imediatos na fauna e flora, o comprometimento da biodiversidade pantaneira em médio e longo prazo, afetando inclusive as migrações de espécies, exige uma resposta diplomática e operacional coordenada”, alerta o presidente do IHP.
Debate ganhou força na COP15
A proposta foi impulsionada durante a 15ª Reunião da Conferência das Partes (COP15), realizada em Campo Grande em março, dentro da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS). O encontro reforçou a necessidade de integração entre países vizinhos diante de sistemas diferentes de combate ao fogo e controle ambiental.
A avaliação é de que apenas ações coordenadas formalmente podem superar barreiras burocráticas e permitir respostas mais rápidas em áreas de fronteira.
Entre os pontos defendidos para o futuro acordo estão:
- integração entre brigadas e instituições dos dois países
- redução de burocracias para atuação em áreas de fronteira
- proteção de rotas migratórias e espécies ameaçadas
- Cooperação já existe na prática
Apesar da ausência de um acordo formal entre governos, o trabalho conjunto já ocorre em diferentes frentes. O IHP mantém parcerias e troca de informações com instituições bolivianas, além da atuação da Brigada Alto Pantanal em ações de monitoramento e prevenção.
Em julho de 2025, integrantes do instituto participaram de um programa de formação de brigadistas em Santiago de Chiquitos, na Bolívia, com foco em técnicas de combate a incêndios em áreas remotas e uso de tecnologias de prevenção.
Já em 2024, o IHP firmou parceria com a Fundación Centro de Estudios Rurales y de Agricultura Internacional (CERAI) para ações de combate ao fogo e projetos de conservação na região de San Matías, área de transição entre o Chaco, o Cerrado e o bosque seco chiquitano.
No ano anterior, a Brigada Alto Pantanal também atuou em conjunto com o Exército Boliviano e o Prevfogo/Ibama no combate a incêndios na região da Laguna Mandioré, área de fronteira entre os dois países.
*Com informações do Instituto Homem Pantaneiro (IHP).
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