Terça-feira, 15 de Setembro de 2026
Entrelinhas Anne

Quando a emergência vira método

29 jan 2026 - 10h37   atualizado em 03/03/2026 às 09h59

Anne Andrea Fonseca de Andrade

Quando a emergência vira método alagamento

Toda vez que chove forte, o Estado descobre que não estava pronto.

As respostas se organizam depois do estrago: decretos, comissões formadas às pressas, levantamentos preliminares e reuniões anunciadas com urgência. O discurso é conhecido. A chuva foi intensa. Foi rápida. Foi excepcional. Não houve tempo para alertar.

O problema é que essa explicação se repete com regularidade suficiente para deixar de ser explicação.

O Brasil já não lida com eventos raros. Lida com padrões. Chuvas intensas, concentradas e rápidas deixaram de ser exceção e passaram a integrar um cenário climático conhecido. Isso não é novidade técnica. É dado público. Ainda assim, a gestão do risco segue baseada na reação, não na antecipação.

O poder público conhece as áreas vulneráveis, as falhas de drenagem e os limites dos sistemas de alerta. O que não se vê é a conversão desse diagnóstico em ação contínua. Quando a resposta só começa depois da perda, não se está prevenindo. Está-se administrando o dano.

São comuns estruturas criadas em caráter emergencial para organizar a resposta depois do impacto. Informações são reunidas tardiamente e decisões são otimizadas somente depois que o prejuízo já foi contabilizado. Tudo isso pode ser necessário. Nada disso é suficiente.

A repetição desse modelo revela um problema mais profundo: a substituição do planejamento por sucessivas emergências. A exceção vira regra. O improviso ganha status de política pública. A reconstrução ocupa o espaço que deveria ser da prevenção.

As soluções são conhecidas e técnicas: drenagem adequada, manutenção permanente, ordenamento do solo compatível com a realidade climática e sistemas de alerta integrados. O obstáculo não é conceitual, mas político e orçamentário. Exige prioridade, continuidade e decisões que sobrevivam ao calendário eleitoral.

Enquanto isso, a cada novo temporal, o país repete o mesmo gesto: corre atrás do prejuízo e chama isso de resposta.

O que está em jogo não é a força da chuva. É a escolha de agir apenas depois dela.

Até quando a emergência seguirá sendo resposta e não evidência de um modelo que falha antes da primeira gota cair?

Receba a coluna Entrelinhas no seu Whatsapp. Clique aqui para seguir o Canal do Capital do Pantanal. 

Leia Também

Punimos. E Depois?
Entrelinhas

Punimos. E Depois?

O minério não constrói cidades
Entrelinhas

O minério não constrói cidades

O rio que não reconhece fronteiras
Entrelinhas

O rio que não reconhece fronteiras

A conta que ficou
Entrelinhas

A conta que ficou

O preço da navegação
Entrelinhas

O preço da navegação

A máquina que nunca discorda
Entrelinhas

A máquina que nunca discorda

Menos horas, mesma conta
Entrelinhas

Menos horas, mesma conta

A Anatomia do Vazio
Entrelinhas

A Anatomia do Vazio

O Pantanal e a ilusão do impacto controlado
Entrelinhas

O Pantanal e a ilusão do impacto controlado

O trabalho está adoecendo o Brasil
Entrelinhas

O trabalho está adoecendo o Brasil

Mais Lidas

PM fecha barbearia usada como depósito de drogas em Corumbá
Polícia

PM fecha barbearia usada como depósito de drogas em Corumbá

Nova pesquisa Ranking avalia intenção de voto para deputado estadual em MS
Eleições 2026

Nova pesquisa Ranking avalia intenção de voto para deputado estadual em MS

Academia Patrícia Gonzalez conquista 10 prêmios internacionais na Argentina
Cultura

Academia Patrícia Gonzalez conquista 10 prêmios internacionais na Argentina

Nova pesquisa Ranking mostra disputa acirrada para deputado federal em MS
Eleições 2026

Nova pesquisa Ranking mostra disputa acirrada para deputado federal em MS