Terça-feira, 16 de Junho de 2026
Entrelinhas Anne

É um avião? Não

22 jul 2025 - 14h29   atualizado em 03/03/2026 às 09h59

Anne Andrea Fonseca de Andrade

É um avião? Não fiacao-eletrica

Se você caminhar pelas ruas e simplesmente olhar para cima, a cena é quase inacreditável. Fios soltos, enrolados, pendurados entre postes, fachadas e marquises. Emaranhados que cruzam ruas como se fizessem parte da arquitetura urbana. É um avião? Não. São os cabos. Muitos deles sem função, todos eles perigosamente fora de controle.

Esses fios pertencem, em sua maioria, a empresas de telefonia, internet e TV a cabo. Quando um serviço é cancelado, os cabos raramente são retirados. Novos são lançados sobre os antigos, e o acúmulo cresce. Em muitos casos, os fios rompem, caem ou ficam pendurados, ampliando o risco de acidentes, de choques a incêndios.

O problema mistura descuido, falha na fiscalização e uma preocupante aceitação da desordem. Com o tempo, o olhar se acostuma, e o que deveria causar alerta vira paisagem. Mas basta uma ventania ou uma poda malfeita para que o descaso revele suas consequências.

Além dos riscos, os fios prejudicam a paisagem urbana. Poluem visualmente, transmitem desorganização e expõem o quanto ainda precisamos avançar em estrutura, segurança e respeito ao espaço comum.

A legislação é clara. Cabe o poder público notificar as operadoras para que removam os cabos sem uso. As empresas têm prazos para regularizar. Já a prefeitura tem o dever legal de fiscalizar, autuar e, se necessário, providenciar a retirada direta.

Mas a prática não acompanha a norma. Os cabos continuam lá: visíveis, perigosos, ignorados.

A cidade segue presa por fios e por omissões. Quando o poder público não cumpre seu papel e as empresas se eximem da responsabilidade, o resultado é esse: insegurança, poluição visual e a fragilidade da gestão urbana exposta a céu aberto.

E não se trata apenas de estética. Trata-se de segurança, de responsabilidade legal, de respeito à coletividade.

Enquanto isso, seguimos caminhando sob fios soltos, sujeitos ao risco e ao silêncio institucional.

E o Ministério Público?

Espera-se que instituições com legitimidade ativa, como o MP, que podem agir de ofício na defesa do interesse coletivo, acompanhem e adotem providências. Até agora, não há notícia de ação concreta nesse sentido.

Quem fiscaliza quem não cumpre a lei?
Quem cobra quem deveria cobrar?

A resposta, por enquanto, é o silêncio.
Mas ele também tem prazo de validade.

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