Terça-feira, 28 de Abril de 2026
Entrelinhas Anne

Quando a luz não vem do poste

16 jul 2025 - 14h32   atualizado em 03/03/2026 às 09h59

Anne Andrea Fonseca de Andrade

Quando a luz não vem do poste praca

Ontem saímos para levar as crianças a um passeio. Um programa simples, quase clichê de férias escolares: aproveitar um momento de luz. Mas foi justamente ela que faltou.

Estávamos na Praça Generoso Ponce, no coração da cidade, em plena Avenida General Rondon. Um cartão-postal… de outro tempo. Porque o que vimos foi só sombra. Todos os postes da praça estavam apagados. A única iluminação vinha da rua, como se dissesse: “olhem pra cá, mas só da calçada pra fora”.

As crianças corriam no escuro, animadas como se não percebessem. E talvez seja melhor assim. Porque quem cresce em um lugar onde não há praça iluminada, nem espaço limpo pra brincar, acaba se acostumando a viver à margem da luz. Ainda bem que elas riem. Ainda bem que elas não veem tudo.

Basta subir um pouco e a cidade muda de tom. Na parte alta, o que se vê são esquinas tomadas por entulho, lixo acumulado, restos de um serviço que talvez exista, só não chega até lá.

E antes que alguém diga que só sabemos reclamar, vale lembrar: a prefeitura diz que tem canal rápido para troca de lâmpadas em até 48 horas. Tem campanha de limpeza urbana. Tem até slogan com rima: Cidade limpa, povo feliz.

Talvez esteja tudo mesmo acontecendo. Mas, se está, a população não está vendo. E quando o serviço público precisa ser adivinhado, alguma coisa está muito errada.

Também vale refletir sobre o conteúdo musical que acompanha esses eventos. A trilha sonora era alta, vibrante, mas pesada demais para o público presente. Eram, em sua maioria, crianças. E por mais que modismos musicais existam, ainda existe bom senso. Há músicas e músicas — e, para momentos voltados à infância, isso precisa ser levado em consideração.

No mais, não pedimos muito.
Que as luzes das praças funcionem.
Que a limpeza chegue também onde o asfalto não brilha.
Que haja segurança onde as famílias se reúnem.
Que a infância não dependa de uma luz itinerante para sentir alegria.

A cidade anda apagada. E o mais perigoso é que isso virou normal. A escuridão virou paisagem. E ninguém mais nota que a luz se foi.

Seguimos às escuras.
Não por falta de energia, mas por excesso de indiferença.
A luz que falta não é elétrica. É pública.
E talvez o maior apagão nem esteja nos postes,
mas na consciência de quem deveria acendê-los.

Receba a coluna Entrelinhas no seu Whatsapp. Clique aqui para seguir o Canal do Capital do Pantanal.

 

Leia Também

O peso do prumo
Entrelinhas

O peso do prumo

Uma casa emprestada
Entrelinhas

Uma casa emprestada

A engenharia da seca no Pantanal
Entrelinhas

A engenharia da seca no Pantanal

Nova face da violência escolar
Entrelinhas

Nova face da violência escolar

BR-262: A rota que não fecha
Entrelinhas

BR-262: A rota que não fecha

O problema nunca foram as unhas
Entrelinhas

O problema nunca foram as unhas

O sistema falhou antes do crime. Por quê?
Entrelinhas

O sistema falhou antes do crime. Por quê?

A medida existe. A proteção ainda está em construção.
Entrelinhas

A medida existe. A proteção ainda está em construção.

A riqueza que não se transforma em futuro
Entrelinhas Anne

A riqueza que não se transforma em futuro

Entre o potencial e a execução
Entrelinhas Anne

Entre o potencial e a execução

Mais Lidas

Brasileiro ligado ao PCC é capturado na Bolívia e entregue em Corumbá
POLÍCIA

Brasileiro ligado ao PCC é capturado na Bolívia e entregue em Corumbá

Demolição de clube histórico abre caminho para obra de saneamento
geral

Demolição de clube histórico abre caminho para obra de saneamento

Fazenda em Corumbá teria sido pivô de suposto esquema de propina no TJMS
Investigação

Fazenda em Corumbá teria sido pivô de suposto esquema de propina no TJMS

Inquérito civil prorroga investigação de suposta fraude milionária na gestão Iunes
Justiça

Inquérito civil prorroga investigação de suposta fraude milionária na gestão Iunes