Corixo Gonçalinho, braço do rio Paraguai, na região de Porto Morrinho, em Corumbá.
(Foto: Enviada ao Capital do Pantanal)
Ribeirinhos e proprietários de pousadas de Porto Morrinho, em Corumbá, voltam a denunciar problemas no Corixo Gonçalinho e questionam a execução de uma operação de desobstrução realizada pelo DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) em julho. Segundo os moradores, uma embarcação permaneceu entre 30 e 40 dias na região, mas deixou o trabalho sem concluir a limpeza do canal, que continua com trechos sem condições de navegação.
A situação já havia sido denunciada pelo Capital do Pantanal em fevereiro e março, quando moradores relataram o bloqueio dos acessos ao Corixo por camalotes e vegetação aquática. Agora, após a operação anunciada pelo DNIT, eles afirmam que o problema permanece.
Segundo um dos proprietários de pousada, a embarcação chegou à região durante o período de frio e permaneceu por aproximadamente 30 dias. O trabalho, porém, teria avançado pouco e não chegado sequer à metade do Corixo.
Ele relata que a equipe teria enfrentado dificuldades porque a vegetação se prendia constantemente à hélice da embarcação. Ainda segundo o morador, os mergulhadores responsáveis pela retirada do material não quiseram continuar entrando na água devido às baixas temperaturas.
“Eles ficaram 30 dias, para ser mais exato. Só que eles trabalharam muito pouco. Eles não chegaram na metade da limpeza do Corixo”, relata.
Para os moradores, a questão mais grave é a falta de fiscalização sobre a execução do serviço. Segundo eles, enquanto obras rodoviárias contam com fiscais que acompanham o trabalho, fazem registros e encaminham medições para aprovação, não haveria acompanhamento semelhante nas operações de limpeza dos canais.
“Não existe uma fiscalização do DNIT pra ver quem tá desempenhando o serviço e se tá fazendo o serviço de acordo”, afirma.
O morador questiona como o serviço pode ser considerado concluído se a embarcação deixou a região sem alcançar o trecho necessário.
“O dinheiro do DNIT foi pro bolso de alguém. Não veio no Corixo, porque o Corixo continua sujo”, afirma.
Uma proprietária de pousada também afirma que a embarcação permaneceu semanas no local sem solucionar o problema.
“É um pedido de ajuda que eu estou fazendo e, ao mesmo tempo, estou fazendo uma denúncia, porque o serviço não foi efetuado e eles receberam por isso”, afirma.
DNIT afirma que serviço foi executado
Procurado pelo Capital do Pantanal, o DNIT informou que “o serviço de desobstrução do Corixo Gonçalinho, na região de Porto Morrinho, foi executado durante o mês de julho”.
O órgão acrescentou que novas intervenções podem ser planejadas para o final do semestre, dependendo do volume de novas obstruções de vegetação e do nível de água dos canais.
A reportagem informou novamente ao DNIT que os moradores contestam a execução do serviço e afirmam que o Corixo continua obstruído. Até a publicação, o órgão não havia respondido ao novo questionamento.
Problema afeta moradores e pousadas
O bloqueio do Corixo interfere diretamente na rotina dos moradores e na atividade econômica da região. Para os proprietários de pousadas, o turista que chega ao Pantanal para pescar precisa conseguir sair de barco pelo canal.
“O turista que procura nosso hotel quer viver uma experiência de pesca no Pantanal. Porém, com o Corixo do jeito que está, não conseguimos oferecer isso”, relata Celso Sebastião Vieira, proprietário da Pousada Sonho Meu.
Segundo ele, os impactos atingem também os ribeirinhos, que dependem da movimentação econômica gerada na região.
“Somos geradores de emprego e renda na região, mas sem o Corixo desobstruído não conseguimos cumprir nosso papel”, afirma.
O morador também cita outra área que, segundo ele, aguarda uma intervenção prometida pelo DNIT, em uma baía localizada acima da região conhecida como Castelo.
“Eles vivem de promessa de fazer um serviço adequado para beneficiar a população ribeirinha, para beneficiar dono de hotéis e pousadas, mas não fazem”, afirma.
A denúncia dos moradores também envolve os impactos da atividade mineral na região. Um dos proprietários afirma que a movimentação das barcaças de minério pelo Rio Paraguai provoca deslocamento de areia nas margens e contribui para o assoreamento de áreas utilizadas pelas comunidades.
“As barcaças de minério que há uns anos atrás quase derrubou a ponte, hoje elas são obrigadas a transportar cada vagão, um vagão por vez. Ela desce jogando areia, sobe pegar um outro jogando areia na beirada. A nossa área está sendo assoreada por causa dessas barcaças”, afirma.
O morador também questiona o aumento da circulação de caminhões carregados com minério na região.
“Meu hotel fica a 700 metros da pista. Nunca se via aqui poeira de minério. Por quê? Porque o minério era transportado no trem lá do Menk até o Porto Esperança”, relata.
Segundo ele, atualmente a poeira vermelha chega às propriedades próximas à BR-262 e fragmentos de minério transportados pelos caminhões também representam risco para quem trafega pela rodovia.
“Eu duvido você vir de Campo Grande até Corumbá e voltar sem estourar o seu para-brisa com pedra de minério”, afirma.
Para os moradores, Corumbá e Ladário convivem há anos com os efeitos da exploração mineral, seja pela poeira, pelo trânsito de caminhões ou pela movimentação das embarcações.
Concessão da hidrovia amplia preocupação
As reclamações de Porto Morrinho acontecem enquanto o Rio Paraguai passa por uma discussão que pode mudar a forma como a navegação será administrada.
A ANTAQ (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) conduz o projeto de concessão da Hidrovia do Rio Paraguai, que prevê a exploração da infraestrutura hidroviária em um trecho de aproximadamente 600 quilômetros, entre Corumbá e a Foz do Rio Apa, incluindo o Canal do Tamengo. O projeto prevê intervenções para manutenção e ampliação das condições de navegabilidade e busca dar maior regularidade ao transporte de cargas pelo rio.
A proposta foi tema de audiência pública em Corumbá, onde moradores, representantes da sociedade civil e autoridades apresentaram questionamentos sobre o projeto.
Para os moradores, existe uma contradição entre a discussão sobre ampliar e garantir a navegação comercial e a realidade de comunidades que ainda enfrentam dificuldades para manter navegáveis os próprios canais utilizados para trabalhar, pescar, transportar pessoas e receber turistas.
A preocupação é que a busca por uma navegação cada vez mais regular para grandes embarcações desconsidere o ciclo natural do Rio Paraguai, marcado por períodos específicos de cheia e seca.
O movimento também ocorre em outras hidrovias brasileiras. No Rio Tapajós, no Pará, o Ministério Público Federal recomendou em julho a suspensão de obras de dragagem entre Santarém e Itaituba, alegando falta de licenciamento ambiental e de consulta prévia a povos indígenas e comunidades tradicionais. A Hidrovia do Tapajós também está incluída no planejamento federal para futuras concessões.
Para os moradores de Porto Morrinho, a discussão não pode considerar o Rio Paraguai apenas como uma rota para o transporte de cargas. O rio também é fonte de alimento, trabalho, transporte e sobrevivência para comunidades que vivem às suas margens.
Em entrevista ao Farol Brasil, Luana Monaco chama atenção para outro ponto da discussão: a exploração mineral é uma atividade finita. O minério pode acabar, mas o Rio Paraguai e as comunidades que dependem dele permanecem.
A pergunta, portanto, não é apenas quanto minério ainda poderá ser transportado pelo Rio Paraguai.
É também que Rio Paraguai ficará para as comunidades quando o minério deixar de ser o principal motivo para movimentar suas águas.
Enquanto a discussão sobre a concessão avança, em Porto Morrinho, moradores continuam esperando algo mais básico: conseguir colocar um barco na água, atravessar o Corixo Gonçalinho e voltar a trabalhar.
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