Segunda-feira, 01 de Junho de 2026
cultura

Acervo digital resgata memória da dança e legado de Sarah Figueiró

01 jun 2026 - 16h41   atualizado às 18h06

Danielly Carvalho

Acervo digital resgata memória da dança e legado de Sarah Figueiró Registro de 1996 mostra homenagem da ASMPD a Maria Verônica Nogueira. (Foto: Acervo pessoal de Sarah Abussafi Figueiró)

A trajetória da dança em Mato Grosso do Sul ganhou um novo instrumento de preservação. Um projeto cultural transformou em acervo digital dezenas de documentos, registros administrativos, materiais gráficos e mais de 33 horas de vídeos que ajudam a contar a história da atividade artística no Estado. O trabalho tem como ponto de partida o conjunto documental reunido por Sarah Abussafi Figueiró, uma das principais incentivadoras da dança sul-mato-grossense.

A iniciativa foi idealizada pela bailarina, pesquisadora e produtora cultural Maria Fernanda Figueiró, neta de Sarah. O material integra uma coleção entregue ao Museu da Imagem e do Som (MIS) em 2002 e reúne documentos produzidos pela Associação Sul-Mato-Grossense dos Profissionais de Dança (ASMPD), entidade que participou da organização dos primeiros grandes movimentos da dança no Estado.

Além da recuperação de documentos históricos, o projeto realizou a digitalização de folders, arquivos administrativos e fitas VHS que registram apresentações, festivais e atividades ligadas ao desenvolvimento da dança sul-mato-grossense. O objetivo é ampliar o acesso público ao conteúdo e evitar a perda de informações importantes para a história cultural regional.

A ação foi contemplada pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio do Edital de Chamamento Público nº 04/2025, destinado à concessão de bolsas culturais voltadas à pesquisa, intercâmbio cultural e aprimoramento artístico.

Descoberta durante pesquisa

A origem do projeto está ligada a uma descoberta feita por Maria Fernanda enquanto desenvolvia o espetáculo de dança "Chafica", criado em 2023 em homenagem à avó. Durante a pesquisa para a montagem, ela encontrou uma reportagem publicada em 2002 com a manchete: “História da dança vai para o MIS”. Foi a primeira vez que soube da existência da doação realizada por Sarah.

A partir dessa informação, a pesquisadora visitou o museu para conhecer o material preservado. O contato com os documentos motivou a criação da proposta de digitalização.

“Minha avó nunca chegou a comentar comigo sobre essa doação. Descobri esse gesto de cuidado por meio de uma reportagem de jornal. Foi ali que nasceu o desejo de digitalizar o acervo e ampliar o acesso público a esse patrimônio”, relembra.

Durante o desenvolvimento do projeto, uma coincidência chamou a atenção da idealizadora. O termo de empréstimo das fitas VHS para digitalização foi assinado por Maria Fernanda em 7 de agosto de 2025. Já o documento de doação firmado por Sarah junto ao MIS tem a data de 6 de agosto de 2002.

“Foi emocionante perceber que, duas décadas depois, eu estava voltando à mesma instituição para dar continuidade ao gesto iniciado por ela: preservar e compartilhar a memória da dança sul-mato-grossense”, conta.

Classe artística homenageia Sarah Abussafi pelos 70 anos, em 2004. Foto: Acervo

Referência na cultura estadual

Nascida em Campo Grande, Sarah Abussafi Figueiró construiu uma trajetória marcada pela atuação em projetos culturais e pela valorização das artes. Filha de imigrantes libaneses que chegaram ao Brasil pelo porto de Corumbá, ela atuou como professora de artes e ocupou posições de destaque em entidades ligadas à cultura.

Entre suas contribuições está a presidência da Associação Sul-Mato-Grossense dos Profissionais da Dança, além da participação na criação de organizações culturais e artísticas. Também esteve à frente das 13 primeiras edições dos Festivais Sul-Mato-Grossenses de Dança, realizados entre 1985 e 1998.

Sarah participou ainda da fundação da Rede Feminina de Combate ao Câncer de Campo Grande e recebeu o título de Delegada da Associação Interamericana de Dança. Ela faleceu em 2019, aos 85 anos.

Para Maria Fernanda, a herança deixada pela avó vai além das contribuições institucionais.

“Antes de tudo, ela era minha avó. Uma pessoa muito presente, que gostava de contar histórias, ouvir música, conversar e compartilhar memórias. Ela me ensinou a importância da palavra, da história e da memória. Acho que essa foi a maior herança que me deixou”, afirma.

Festivais marcaram gerações

Entre os documentos recuperados estão registros dos Festivais Sul-Mato-Grossenses de Dança, eventos que durante mais de uma década reuniram academias, grupos e companhias de diferentes regiões do país.

As programações incluíam apresentações, oficinas, workshops e atividades de formação artística. Ao longo dos anos, passaram pelos festivais grupos reconhecidos nacionalmente, como a Cia. Cisne Negro, Ballet Stagium, Grupo Raça, Quasar Cia. de Dança e Ballet Paula Castro.

O acervo também reúne materiais relacionados a jurados e convidados que participaram das edições, entre eles Beth Oliosi, Toshie Kobayashi, Roseli Rodrigues e Mariana Muniz.

Entre os documentos preservados está uma dedicatória deixada pelo bailarino Carlinhos de Jesus durante a 13ª edição do festival, em 1998. Na mensagem, ele escreveu: “Dona Sarah, que tua energia, sabedoria e simpatia possam continuar construindo os festivais sul-mato-grossenses de dança. Adorei conhecê-la, tenho o prazer de poder dizer que fui teu amigo. Você é o máximo!”

Patrimônio disponível na internet

O resultado do trabalho está disponível em uma plataforma digital criada para reunir e divulgar o conteúdo preservado. O portal www.sarahfigueiro.com.br passa a disponibilizar parte do material ao público e poderá receber novos documentos futuramente.

A proposta é ampliar o espaço dedicado à memória da dança sul-mato-grossense, reunindo registros que contribuam para compreender a evolução da atividade artística no Estado.

“Sem memória, nossa atuação artística empobrece. Precisamos conhecer quem veio antes de nós, quem lutou para que hoje tivéssemos mais espaços e possibilidades. A dança que fazemos hoje também é resultado dessas histórias”, destaca Maria Fernanda.

Ao longo do processo de catalogação e digitalização, a pesquisadora encontrou documentos organizados pela própria Sarah décadas atrás, muitos deles identificados manualmente em uma época anterior à popularização dos computadores e da internet. Os registros ajudam a reconstruir uma parte importante da história da cultura sul-mato-grossense e mantêm viva a contribuição de quem ajudou a consolidar a dança no Estado.

*Com informações da assessoria de comunicação.

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