PM Marcelo Pimenta morto em perseguição policial.
(Foto: Divulgação)
A noite de 30 de junho de 2026, uma terça-feira, entrou para a história de Ladário e Corumbá como o dia em que a guerra de facções saiu do submundo e foi travada a céu aberto, com fuzil, dentro de um bairro residencial.
Homens armados e encapuzados invadiram o Conjunto Cohab, em Ladário. O alvo, segundo relatos de moradores e apuração inicial da imprensa local, era um morador da região. Houve pânico e tiros de grosso calibre. Na fuga, o grupo confrontou a Polícia Militar. Resultado: o soldado Marcelo Pimenta, de 32 anos, com menos de um ano de corporação, foi morto. Jovem. Fardado. Deixando uma família e uma corporação de luto.
A tropa de Choque enviada às pressas de Campo Grande entrou em confronto. Um dos suspeitos morreu. Outro, responsável por guardar armamentos, se entregou.
A pergunta que fica: por que a tropa só veio depois que um policial tombou?
Há pelo menos 15 dias, Corumbá registra execuções em via pública. Moradores contam três homicídios em menos de duas semanas. O medo virou rotina. A população desta cidade de menos de 100 mil habitantes, encravada na fronteira com a Bolívia, assiste a um filme que já conhece: tráfico de drogas, descaminho, contrabando, roubo, furto. E agora, a cereja do bolo: confrontos diretos entre facções rivais, modelo PCC x CV, dentro da zona urbana.
A fronteira está nua.
Qualquer jornalista que cobre segurança aqui sabe: faltam viaturas, sobram promessas. O helicóptero prometido há anos para a região virou lenda urbana. Policiais se revezam em poucos carros para atender uma malha de bairros, portos clandestinos e estradas vicinais que levam à Bolívia.
Salário? Incompatível com quem encara fuzil toda semana.
Integração? Polícia Civil virou cartório de B.O., Polícia Militar enxuga gelo, Polícia Federal e Receita Federal não dão conta do fluxo, e as Forças Armadas, quando atuam, é em operação pontual.
Não é falta de lei. É falta de Estado.
Em 1992, o então juiz Joviano Rezende de Castro Caiado enfrentou grupos que aterrorizavam Corumbá. Eram outros tempos, outro perfil de criminalidade. Hoje são facções com poder de fogo, financiamento e comando remoto. A resposta não pode ser a mesma de 30 anos atrás.
Desde aquela época, não vimos operação coordenada entre Judiciário, Ministério Público e forças de segurança para desarticular o crime organizado na raiz. O que vemos são reações. Sempre depois. Sempre quando o sangue já manchou a farda.
Eliminar facção não é meta realista a curto prazo. Preparar a cidade para não ser palco de guerra, isso sim é obrigação. Isso significa:
- Aparelhamento real: viaturas blindadas, armamento compatível, drone, helicóptero, inteligência.
- Salário de risco: não se paga com medalha o peito que segura fuzil.
- Integração de comando: chega de PC para um lado, PM para outro, PF calada. Crime organizado não tem divisa de competência.
- Vontade política: fronteira dá voto de quatro em quatro anos. Segurança dá gasto todo mês. Por isso nada muda.
Eu escrevi no "O Lado Oculto do Crime", lançado aqui em Corumbá em 17 de abril deste ano: o crime se nutre da omissão. A noite de 30 de junho provou a tese. Pela primeira vez, vimos o modelo de invasão territorial de facção dentro de bairro residencial na nossa região. Se o recado não foi claro agora, não será nunca.
O soldado Marcelo Pimenta não morreu em vão. Mas ele não pode ser o preço que pagamos para o Estado lembrar que Corumbá existe.
Sylma Lima é jornalista investigativa há 35 anos em Mato Grosso do Sul. Autora de "O Lado Oculto do Crime" e "O Céu Dentro de Mim".
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