Ilustração gerada por IA.
(Foto: Google Gemini)
Eu sou uma escritora CORUMBAENSE. Pantaneira. Levo o nome de Corumbá e de Ladário para o mundo através do meu primeiro livro, "O Céu Dentro de Mim", indicado ao Prêmio Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro e considerado o Oscar da literatura brasileira.
Minhas obras têm cinco estrelas nas principais plataformas digitais. São vendidas para o mundo inteiro. Mas isso, ao que parece, não foi suficiente para sensibilizar o governo do Estado de Mato Grosso do Sul.
Entrei em contato com a Secretaria de Estado de Cultura. O mesmo governo que patrocina com fartura festas milionárias, provando que a velha política do pão e circo se perpetua através dos tempos. Fiz meu pedido dentro da lei. Dentro do direito. Através da *Lei Complementar nº 195/2022, a Lei Paulo Gustavo*, que dispõe sobre ações emergenciais destinadas ao setor cultural, com recursos que são do povo e para o povo.
Pedi apenas a impressão de 100 exemplares do meu terceiro livro: "Aponte para as Estrelas". Não pedi um palácio. Pedi 100 livros.
Não obtive resposta. E esta é a segunda vez que o mesmo governo nos nega apoio.
Este artigo não é para atacar. É para corrigir e lamentar uma atitude tão pequena diante de uma obra tão grande.
"Aponte para as Estrelas" não é um livro de poesia - nada contra os poetas, que tanto admiro. É um livro doloroso, cru, necessário. Um livro dedicado a mães enlutadas, que mostra o luto sem maquiagem, baseado em vieses teológicos, filosóficos, históricos e científicos. Um livro que enfrenta o positivismo tóxico e a cruel crença do mundo justo, que culpa a mãe pela morte do próprio filho.
Eu sou como Clarice Lispector: não me agarro em pequenices e não faço julgamentos em praça pública. Apenas reivindico o que é nosso por direito: a verba pública destinada à cultura.
Como advertia Camões, secularmente: *"Um fraco rei faz fraca a forte gente"*.
No Epílogo de São João, as Sagradas Escrituras dizem: *"No princípio era o Verbo, e o Verbo se fez carne e habitou entre nós"*. A palavra que levanta é a mesma que fere. E quando o poder público se recusa a fazer o verbo virar livro, ele fere toda uma cadeia de leitores.
Nietzsche já alertava: *"Quem luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro"*. E essa é a crise da nossa consciência pública: a lealdade com prazo de validade. A gentileza que some quando deixa de ser conveniente. O apoio à cultura que só existe se for conveniente ao palco.
Não dá para fingir que não viu.
E quando a gente percebe isso e aponta, as pessoas recuam e dizem que estamos amargas e paranoicas. Talvez seja mais fácil acreditarem nisso do que admitirem que estamos certas. É exatamente nessa hora que a gente para de falar e passa a observar.
Eu observei. O governo do Estado de Mato Grosso do Sul negou 100 livros a uma escritora pantaneira finalista do Jabuti, mas não negou palco, luz e dinheiro para festas.
Governador, a Lei Paulo Gustavo não é favor. É Lei. É reparação histórica. É o mínimo.
Aponte para as estrelas, Governador. Porque quem só olha para o próprio umbigo, acaba não enxergando o céu de ninguém.
Sylma lima
Pantaneira, jornalista, escritora corumbaense, finalista do Prêmio Jabuti, autora dos livros O Céu dentro de mim e O lado oculto do crime.
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