Prédio da Prefeitura Municipal de Ladário.
(Foto: Divulgação/PML)
Ladário é um município dentro de outro. Quem precisa de saúde atravessa a ponte para Corumbá. Quem precisa de respostas atravessa um muro de burocracia. É uma cidade pequena, com orçamento pequeno, mas com problemas grandes demais para serem tratados como folclore.
Nos últimos dias, Ladário voltou ao noticiário pelo pior motivo. A Polícia Civil investiga um atentado que matou o policial militar Marcelo Pimenta, de 32 anos, no dia 30 de junho. A resposta foi a vinda da tropa de Choque de Campo Grande, troca de tiros com armamento pesado e a confirmação do que a população já sente: o crime organizado disputa território aqui dentro.
Não é paranoia. É rotina ver viaturas na porta de casas, ouvir sobre perseguição, contar quantos parentes de investigados ocupam cargos. É rotina abrir o Portal da Transparência da prefeitura e encontrar valores milionários para festas e shows, enquanto o adicional de quem ganha menos some da folha. É rotina ver diretorias ocupadas por familiares sem formação na área, com remuneração maior que a de secretários, enquanto a saúde continua dependendo do hospital da cidade vizinha.
E agora há um novo elemento, vindo de dentro: servidores concursados, com faculdade, relatam ter registrado boletins de ocorrência por assédio moral em secretarias. Mesmo com diploma e convocação oficial, seguem recebendo vencimentos que se equiparam ao piso de categorias sem exigência de nível superior. O corte atinge a base, não atinge o gabinete.
A pergunta continua prática: como uma cidade encravada, com dependência total de saúde externa e com histórico recente de violência armada, justifica priorizar palco em vez de posto? Como justifica manter parentes em setores estratégicos de contratos enquanto quem tem formação é assediado e mal remunerado?
Não estou aqui para apontar culpados. Estou aqui para pedir o que a lei já garante: controle externo. Cabe ao Ministério Público, e não ao morador com medo, abrir esses dados, cruzar nomes, checar nepotismo, auditar licitações de shows, verificar a política salarial e apurar as denúncias de assédio que já viraram boletim de ocorrência.
Uma cidade onde bandidos trocam tiros com a polícia e onde quatro mortes acontecem em uma operação não pode tratar transparência como enfeite. O portal não pode ser vitrine, tem que ser instrumento.
Que o Ministério Público olhe com lupa para Ladário: para os contratos, para as nomeações, para as folhas de pagamento, para os gastos com eventos e para os registros de assédio. Sem nomes, sem espetáculo. Só com números, documentos e a lei.
Quem vive aqui não quer festa cara. Quer hospital que funcione, salário digno para quem estudou e passou no concurso, e a certeza de que o poder público não está de braços dados com o medo.
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