Segunda-feira, 15 de Junho de 2026
Entrelinhas Convidado

Analisando a PEC de Segurança

04 fev 2026 - 15h55   atualizado em 03/03/2026 às 09h59

Articulistas convidados

Analisando a PEC de Segurança alirio-villasanti-comandante-da-pm

A PEC da Segurança caminha para ser votada após o Carnaval. Ainda falta a análise pela comissão especial, e o relator da proposta deverá se reunir com as bancadas partidárias para a realização dos ajustes finais.

A proposta inicialmente apresentada pelo Governo Federal concentra de forma excessiva na União o planejamento central da segurança pública, desconsiderando o Pacto Federativo, a história e a doutrina já sedimentadas das forças policiais estaduais. Essa centralização fere a autonomia de gestão e desrespeita as competências suplementares dos Estados. Como consequência, a Polícia Federal e a Justiça Criminal Federal, por exemplo, poderiam absorver centenas de milhares de inquéritos policiais e processos criminais atualmente conduzidos pelas Polícias Civis. 

O relator destacou, no entanto, que a independência dos Estados e Municípios — defendida principalmente pelos governadores — será mantida. Até porque, basta citar dois exemplos: a União não possui estrutura para realizar o trabalho que os Estados vêm desempenhando no combate às organizações criminosas e na preservação do meio ambiente. No Mato Grosso do Sul, temos o belíssimo trabalho de repressão qualificada ao crime organizado realizado pela Polícia Civil por meio do DRACCO, bem como a atuação pioneira e de excelência da Polícia Militar Ambiental na preservação do meio ambiente. Vale lembrar que a maioria das lideranças das facções criminosas no Brasil está presa em decorrência de ações das corporações estaduais.

Entendo que o objetivo principal do projeto deve ser a busca de soluções para um sistema já sobrecarregado, além da plena concretização do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), projeto que tive a honra de ajudar a construir em 2018, como representante classista.

É notório que a União não tem cumprido suas responsabilidades no setor. Até hoje, não foram aprovadas as Leis Orgânicas Nacionais da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e da Polícia Penal.

A PEC pretende possibilitar, por exemplo, que cargos comissionados exerçam funções de corregedoria, regulamentando e disciplinando membros das corporações. Trata-se de uma área que exige conhecimento técnico e específico, pois envolve análises complexas e próprias da atividade policial. Quem nunca atendeu uma ocorrência policial e não possui vivência prática do que é um confronto armado não pode, agora, emitir juízos simplistas. Não se pode generalizar nem agir com preconceito: as forças policiais não acobertam atos ilícitos, tampouco fomentam a impunidade, mas promovem a constante depuração de seus quadros.

Existem inúmeros mecanismos de controle interno e social sobre os integrantes das corporações, como as Corregedorias, a Justiça Militar, os Conselhos Comunitários de Segurança — integrados por membros da sociedade — e a própria imprensa.

Diversas ações podem ser adotadas pela União para melhorar a segurança pública, como o apoio à aprovação de projetos de lei que tipifiquem o crime de domínio de cidades e territórios; criem o cadastro nacional de facções criminosas e milícias; tornem mais rígidas as regras para internação de adolescentes que cometem atos infracionais; garantam aos órgãos policiais acesso às informações das tornozeleiras eletrônicas; instituam um programa nacional que assegure apoio psicológico, proteção e prioridade na tramitação de inquéritos policiais envolvendo agentes de segurança; e tornem obrigatória a conversão da prisão em flagrante em prisão preventiva, nas audiências de custódia, nos casos de crimes hediondos, roubos e associação criminosa. Acabar com a vergonhosa visita íntima e com a classificação de presos por organizações criminosas também deve ser prioridade.

Deve-se, ainda, priorizar a repressão ao tráfico internacional de drogas e armas, ao descaminho e ao contrabando, bem como a fiscalização das fronteiras terrestres, marítimas e fluviais.

Outras ações importantes incluem o fortalecimento do Projeto Bolsa Formação, no âmbito do Programa Nacional de Segurança Cidadã (PRONASCI), o repasse dos recursos orçamentários contingenciados e a retomada do SISFRON.

Espero que a PEC da Segurança represente um avanço para um país que vive com medo e, muitas vezes, enclausurado, possibilitando também a discussão de temas relevantes, como a fixação de um percentual constitucional para a segurança pública, a criação de um Ministério específico, maior investimento e estruturação dos órgãos federais e a extinção da audiência de custódia.

Por fim, nunca é demais realçar e deixar claro que o policial não é o único responsável pela violência no país.

Artigo de Alírio Villasanti, comandante da PM

Receba a coluna Entrelinhas no seu Whatsapp. Clique aqui para seguir o Canal do Capital do Pantanal. 

Leia Também

A República Federativa da Tributação
Entrelinhas

A República Federativa da Tributação

A República da Vaidade
Entrelinhas

A República da Vaidade

No grande circo Brasil
Entrelinhas

No grande circo Brasil

"Trem da Morte" em operação
Entrelinhas

"Trem da Morte" em operação

Uma cidade fronteiriça
Entrelinhas

Uma cidade fronteiriça

Brasil na Copa do Mundo 2026
Entrelinhas

Brasil na Copa do Mundo 2026

Educação Ambiental e turismo em Corumbá
Entrelinhas

Educação Ambiental e turismo em Corumbá

Tragédias climáticas não se resolvem com discurso
Entrelinhas

Tragédias climáticas não se resolvem com discurso

A IA e a nova era dos golpes digitais
Entrelinhas Convidado

A IA e a nova era dos golpes digitais

Policiamento Rural: Mais segurança para o Campo
Entrelinhas Convidado

Policiamento Rural: Mais segurança para o Campo

Mais Lidas

Ex-dirigente de fundação de Ladário é preso com cocaína na BR-262
polícia

Ex-dirigente de fundação de Ladário é preso com cocaína na BR-262

Idosa é resgatada por helicóptero após emergência no Pantanal
geral

Idosa é resgatada por helicóptero após emergência no Pantanal

Prefeitura aguarda intimação oficial para analisar decisão sobre contrato administrativo
Justiça

Prefeitura aguarda intimação oficial para analisar decisão sobre contrato administrativo

PRF intercepta comboio de luxo na BR-262 em Corumbá
Polícia

PRF intercepta comboio de luxo na BR-262 em Corumbá