Segunda-feira, 30 de Março de 2026
Entrelinhas

Uma cidade fronteiriça

30 mar 2026 - 17h30   atualizado às 17h40

Articulistas convidados

Uma cidade fronteiriça Vista panorâmica de Corumbá, mostrando o encontro do Rio Paraguai com a cidade histórica. (Foto: Renê Marcio Carneiro/PMC)

Outro dia, conversando com um amigo de 23 anos aqui em Corumbá, ele me perguntou o que eu achava da convivência com os bolivianos na cidade. A pergunta, simples à primeira vista, carrega um peso enorme — principalmente nos tempos atuais, em que opiniões apressadas nas redes sociais acabam gerando preconceito e desinformação.

Eu respondi lembrando algo essencial: Corumbá ainda nem completou 250 anos de fundação, mas a ciência já aponta que essa região é habitada há cerca de 10 mil anos. A planície pantaneira, por sua vez, tem ocupação humana de pelo menos 5 mil anos. Ou seja, muito antes de qualquer linha de fronteira existir, povos originários já viviam aqui em harmonia, circulando livremente por esse território que hoje insistimos em dividir.

As fronteiras que conhecemos hoje foram traçadas há pouco tempo na história. Muito depois da passagem de europeus como Cabeça de Vaca, por volta de 1530, e Aleixo Garcia, em 1524, que cruzaram essas terras guiados por caminhos indígenas como o Peabiru e o Mar de Xaraés.

Antes disso, já existia vida, cultura, troca e convivência. Por isso, é impossível não questionar: de onde vem esse preconceito?

Recentemente, durante um sorteio de casas populares, vimos uma reação imediata e xenofóbica de parte da população, que passou a questionar — sem qualquer base — a possível participação de bolivianos no processo. O mais grave é que isso aconteceu antes mesmo das etapas de verificação e triagem, que existem justamente para garantir que as moradias cheguem a quem realmente precisa. Foi um episódio triste e vergonhoso, que revela mais sobre desinformação do que sobre a realidade.

A verdade é que a presença boliviana em Corumbá não só faz parte da cidade como é essencial para o seu funcionamento cotidiano. Basta observar as feiras livres: mais de 80% das barracas são mantidas por trabalhadores bolivianos, que atravessam a fronteira diariamente ao amanhecer. Eles trazem frutas, verduras, legumes, queijos, condimentos, roupas, calçados e uma variedade de produtos que tornam nossa feira mais rica, acessível e diversa. No início da tarde, retornam ao seu país — num fluxo constante que sustenta uma relação de interdependência.

E não é só economia. É cultura.

A Bolívia é um país de riqueza impressionante: abriga o Salar de Uyuni, o maior deserto de sal do mundo; o Lago Titicaca, o lago navegável mais alto do planeta; Tiwanaku, uma das civilizações mais antigas e misteriosas da América do Sul; além de Potosí, que já foi considerada a cidade mais rica do mundo. No departamento de Santa Cruz de la Sierra, aqui tão próximo de nós, convivem tradições de diversas regiões bolivianas, refletidas na culinária, nas festas e nas mais de 37 línguas ainda vivas.

Ao longo de mais de 30 anos viajando pela Bolívia, o que mais me marcou foi o povo: pessoas com forte identidade cultural, sensibilidade artística, conhecimento político, espírito crítico e uma impressionante capacidade de argumentação. É uma sociedade rica não só em história, mas em pensamento.

Diante disso tudo, é preciso dizer com clareza: preconceito não é opinião — é ignorância.

Não é preciso ser especialista em relações internacionais para entender que viver em uma cidade fronteiriça é um privilégio. É ter acesso direto a outras culturas, expandir horizontes, aprender diariamente com o diferente. É compreender que somos mais parecidos do que imaginamos.

Antes de compartilhar qualquer informação ou julgamento, vale a pena pesquisar, refletir e evitar contribuir com discursos de ódio. Ninguém ganha com isso — pelo contrário, todos perdem.

Eu sou feliz em ser fronteiriço. Amo essa mistura, essa troca, essa riqueza cultural que só cidades como Corumbá podem oferecer.

E é importante reforçar: xenofobia é crime. Mas, acima de tudo, é um sinal de desconhecimento que precisa ser combatido com informação, respeito e convivência.

Salim Haqzan, ator e diretor no GETT – Grupo de Experimentos e Truques Teatrais.

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