Polícia da Bolívia divulgou foto de Gerson Palermo após prendê-lo nesta terça-feira, 26 de maio.
(Foto: FELCN/Divulgação)
A prisão do narcotraficante internacional Gerson Palermo, nesta terça-feira (26), em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, é resultado de uma investigação iniciada pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, em outubro do ano passado, depois que ele ordenou o sequestro da própria filha, em Campo Grande. A jovem de 25 anos foi torturada no cativeiro, uma casa nas Moreninhas, e depois de libertada, ajudou a Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco, Assaltos e Sequestros) a prender os sequestradores.
Segundo a Polícia Civil, o caso começou a ser apurado depois da identificação de um plano articulado por Palermo para sequestrar a filha em razão de uma disputa envolvendo R$ 50 mil, dinheiro que teria origem no narcotráfico.
Conforme divulgado à época, a jovem foi abordada quando saía do trabalho, na região central da Capital. Para atraí-la, o pai ligou afirmando que mandaria alguém entregar uma quantia em dinheiro, a fim de ajudar nos custos do tratamento de saúde da avó, que é acamada.
Dois homens estavam no carro e disseram, segundo boletim de ocorrência, que queriam receber dinheiro do "velho", apelido dado a Gerson Palermo. Na sequência, a vítima foi levada ao cativeiro, onde foi torturada com agressões físicas e psicológicas.
Em fotos que os sequestradores chegaram a mandar ao marido da vítima, ela aparecia amarrada. Eles exigiam dinheiro em troca da libertação e faziam ameaças de morte. "Esse é o último áudio que você vai ouvir dela", e, na sequência, enviavam mensagens da vítima em tom de desespero: "Eu amo vocês".
O marido avisou a Garras. Nesse ínterim, Palermo chegou a falar com o avô materno da vítima em uma ligação em que o genro, marido da vítima, também participava. Gerson afirmava que não iria acontecer nada com a filha caso "devolvessem o dinheiro". Também afirmou que estava sendo ameaçado e que todos iriam "morrer por causa desse dinheiro".
Durante as diligências da polícia, a jovem foi libertada na região das Moreninhas. Ela ligou de uma loja de conveniência para o marido, em resgate acompanhado pela Garras. Aos policiais confirmou que o pai orquestrou o sequestro e que ele estava escondido com a mãe dela na Bolívia.
Nesta terça-feira, ela preferiu não comentar a captura do pai. Disse apenas que soube da prisão pela manhã e informou que eventuais manifestações serão feitas por meio do advogado da família. “Eu não tenho nada a comentar sobre isso”, disse.
Sete meses "na cola" do foragido
A partir da elucidação do caso, a investigação prosseguiu por meio do Núcleo de Inteligência Policial da DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente), em atuação integrada com a Polícia Federal e a FELCN (Força Especial de Combate ao Narcotráfico da Bolívia). O trabalho permitiu identificar a localização de Palermo na região de Santa Cruz de la Sierra, a maior e mais populosa cidade boliviana.
De acordo com a Polícia Civil, após meses de monitoramento e troca de informações estratégicas entre as forças de segurança brasileiras e bolivianas, a polícia da Bolívia deflagrou operação que culminou na prisão do investigado nesta terça-feira.
Gerson Palermo é apontado pelas autoridades como integrante do PCC (Primeiro Comando da Capital), a maior organização criminosa do Brasil, que lucra com o tráfico internacional de drogas. O nome do narcotraficante está ligado ao transporte de cocaína da Bolívia para o país e outros destinos internacionais, além da lavagem do dinheiro obtido com os negócios ilegais.
Foragido desde 2020 e condenado a 126 anos, o narcotraficante tem histórico de “façanhas criminais” e traz no currículo a “responsabilidade” pela derrocada do desembargador Divoncir Schreiner Maran, do TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul). O crime mais ousado foi em 16 de agosto de 2000, quando sequestrou um Boeing da Vasp. Já o episódio que levou à punição do magistrado foi em abril de 2020.
De traficante de maconha a sequestrador
Em 1980, quando tinha 22 anos, ele foi preso após uma abordagem da PF na Via Dutra, perto de Resende, no Rio de Janeiro. Na ocasião, policiais interceptaram um Passat que havia saído da fronteira entre Paraguai e Brasil, por Ponta Porã, com 100 quilos de maconha. A droga seguiria para o Rio de Janeiro, onde seria trocada por carros roubados.
A ação terminou em troca de tiros. Um dos integrantes do grupo foi baleado, outro conseguiu fugir e Palermo acabou preso quando tentava deixar a cidade em um ônibus rumo ao Sul do país. Segundo reportagem da época, o grupo atuava em um esquema de troca de droga por veículos, que depois seriam levados para o Paraguai.
Ao longo das décadas seguintes, Palermo voltou a aparecer em investigações de tráfico internacional. Em 1990, foi apontado como um dos principais responsáveis pelo envio de drogas do Paraguai ao Brasil, em operação que usava aviões e caminhões. No mesmo ano, foi preso conduzindo um caminhão carregado com éter e acetona, produtos usados no refino de cocaína.
O episódio mais conhecido da ficha criminal ocorreu em 16 de agosto de 2000, quando Palermo liderou o sequestro de um Boeing 727 da Vasp. A aeronave saiu de Foz do Iguaçu com destino a Curitiba, mas foi tomada por criminosos pouco depois da decolagem. O piloto foi obrigado a pousar em Porecatu, no norte do Paraná, onde a quadrilha roubou malotes do Banco do Brasil com cerca de R$ 5,5 milhões.
Pelo sequestro do avião, Palermo foi condenado a 66 anos e 9 meses de prisão. Mesmo assim, voltou a ser alvo de operações posteriores. Em 2007, foi preso em Campo Grande sob suspeita de coordenar uma quadrilha que movimentava 1,4 tonelada de maconha em um caminhão. Em 2017, foi apontado como principal alvo da Operação All In, da PF, contra tráfico internacional de drogas com uso de aeronaves e caminhões.
Na Operação All In, a Justiça Federal em Campo Grande condenou integrantes de uma organização criminosa liderada por Palermo pelo transporte de mais de 800 quilos de cocaína com origem na Bolívia. A sentença foi divulgada pelo TRF3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região) em 2019.
A prisão na Bolívia recoloca Palermo no centro de um caso que mistura tráfico internacional, fuga, suspeita de venda de decisão judicial e punição inédita a um desembargador em Mato Grosso do Sul. Agora, a pergunta objetiva é menos cinematográfica e mais prática: como um criminoso condenado a quase 126 anos conseguiu ficar seis anos fora do alcance das autoridades depois de sair pela porta da frente de um presídio federal?
*Fonte: Campo Grande News.
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