Funcionária trabalha em viveiro de mudas de eucalipto de fábrica de celulose de Três Lagoas.
(Valdenir Rezende/Correio do Estado/Arquivo)
No trajeto entre Campo Grande e Corumbá, grandes extensões de eucalipto já fazem parte da paisagem vista por quem percorre o estado. Fileiras uniformes de árvores ocupam áreas que antes tinham outros usos do solo e revelam uma transformação que acompanha o avanço da indústria de celulose no estado. O crescimento das florestas plantadas colocou MS entre os maiores produtores do país, mas também ampliou o debate sobre os impactos ambientais desse modelo de ocupação.
Em uma década, a área destinada às florestas plantadas saltou de aproximadamente 300 mil hectares para 1,75 milhão de hectares, um crescimento de cerca de 500%, segundo dados do setor. O movimento acompanha a instalação de grandes empreendimentos ligados à produção de celulose e consolidou municípios do leste sul-mato-grossense como polos dessa cadeia produtiva.
A paisagem que aparece nas rodovias passou a simbolizar uma mudança maior no uso da terra. Para críticos da monocultura, a concentração de extensas áreas com uma única espécie representa o chamado “deserto verde”, expressão usada para questionar possíveis perdas de biodiversidade e alterações nos ecossistemas.
Um parecer técnico elaborado pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul identificou áreas contínuas de plantio de eucalipto com trechos de até 20 quilômetros em linha reta sem corredores ecológicos na região centro-leste do estado. Segundo o estudo, essa configuração reduz a conexão entre remanescentes de vegetação nativa, dificulta o deslocamento da fauna e aumenta a fragmentação dos habitats. Conforme informações divulgadas pelo Campo Grande News, o documento foi produzido pelo Nugeo (Núcleo de Geotecnologias), vinculado ao Caoma (Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa do Meio Ambiente), dentro do Inquérito Civil nº 06.2026.00000708-0, instaurado pela 1ª Promotoria de Justiça da Comarca de Três Lagoas para apurar possíveis impactos ambientais decorrentes da expansão da silvicultura em Mato Grosso do Sul.
Também integra à investigação aberta, possíveis impactos ambientais associados ao cultivo de eucalipto no leste do estado. O procedimento cita mais de 400 nascentes que teriam sido afetadas ou apresentariam sinais de degradação e busca verificar licenciamento, uso de recursos naturais e medidas de compensação.
O documento técnico destaca que a fragmentação provocada por grandes áreas contínuas de eucalipto pode comprometer a conexão entre remanescentes de vegetação nativa e alterar a dinâmica dos ecossistemas locais. O estudo aponta a necessidade de avaliar a distribuição dos plantios e a existência de corredores ecológicos como medidas para reduzir impactos sobre a fauna e preservar a biodiversidade.
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