Pintados apreendidos em fiscalização da PMA.
(Foto: Divulgação)
Novas portarias publicadas pelo Ministério doMeio Ambiente causou uma mistura de alívio comercial com grave alerta ecológico nesta semana em Corumbá. O peixe Pintado (Pseudoplatystoma corruscans), estrela máxima da gastronomia e do turismo de pesca local, voltou ao centro das discussões após a divulgação de um estudo científico alarmante associado ao posicionamento do governo federal sobre a atividade pesqueira. O cenário atual expõe uma realidade complexa na fronteira sul-mato-grossense: ao mesmo tempo em que novas diretrizes regulatórias garantem a sustentabilidade legal da atividade econômica, o ecossistema que sustenta a espécie está encolhendo em ritmo inédito.
A grande novidade normativa veio com a confirmação de que, apesar de o Pintado figurar na lista global de espécies vulneráveis da ONU desde março de 2026, os pescadores amadores e profissionais não estão proibidos de capturá-lo no estado. Conforme detalhado nas diretrizes vigentes, a pescaria comercial e profissional artesanal permanece autorizada em Mato Grosso do Sul, com respeito as regras vigentes, que são muito estritas e fiscalizadas pelo Imasul e Polícia Militar Ambiental.
Ameaça Invisível: Estudo da Unesp aponta perda histórica de água superficial
O paradoxo que reacendeu o debate nesta semana foi a publicação de um estudo coordenado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A análise de imagens de satélite revelou que o Pantanal perdeu 80,7% de toda a sua água superficial nos últimos 40 anos. Os corpos d'água encolheram de quase 20 mil km² em 1985 para apenas 3,8 mil km² recentemente. Essa seca extrema atinge diretamente o ciclo de vida do Pintado, uma espécie essencialmente migratória que necessita das grandes planícies inundadas para realizar a desova e garantir a reprodução natural dos cardumes. Sem as cheias regulares, os estoques pesqueiros perdem a capacidade de reposição nos rios.
O impacto cultural e econômico nas mesas de Corumbá
A urgência desse debate é justificada pelo peso cultural que o gigante das águas possui na Cidade Branca. O Pintado é o peixe de maior consumo comercial e residencial em Corumbá, movimentando hotéis, barcos-hotéis, restaurantes especializados e o sustento de centenas de famílias que integram as colônias de pesca artesanal ao longo do Rio Paraguai. O prato à base de filé ou caldo de Pintado é o principal chamariz do turismo gastronômico regional.
Diante do novo panorama divulgado nesta semana, o grande desafio de Corumbá será equilibrar a manutenção das tradições pantaneiras com as exigências ambientais que a severa estiagem impõe. Especialistas alertam que a liberação da pesca assegurada pelo governo federal necessitará, mais do que nunca, da conscientização dos pescadores e de uma fiscalização implacável contra o uso de apetrechos predatórios, impedindo que o prato mais famoso da região desapareça das águas antes mesmo de chegar às mesas.
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