Sábado, 30 de Maio de 2026
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Do Presídio Federal, Palermo depõe sobre ter ordenado sequestro da própria filha

28 mai 2026 - 17h26   atualizado às 18h25

Danielly Carvalho

Do Presídio Federal, Palermo depõe sobre ter ordenado sequestro da própria filha Gerson Palermo foi transferido para a Penitenciária Federal de Campo Grande após prisão na Bolívia. (Foto: Campo Grande News)

Isolado em cela da Penitenciária Federal de Campo Grande desde às 10h30 desta quinta-feira (28), o narcotraficante internacional Gerson Palermo, de 68 anos, foi interrogado nesta tarde em ação que o julga como mandante do sequestro da própria filha.

O depoimento foi coletado por videoconferência pelo juízo da 3ª Vara Criminal. Palermo nega a acusação.

Já no Fórum de Campo Grande, foram interrogados o outro réu no processo, Reinaldo Silva de Farias, acusado de participar da execução do sequestro, e, na condição de testemunha, a esposa de Palermo e mãe da vítima, que não teve o nome divulgado.

Silvana Melo Sanches não vivia mais com Gerson Palermo na Bolívia quando ele foi preso, na terça-feira (26), em Santa Cruz de la Sierra. Nesta quinta-feira (28), ela foi a primeira pessoa ouvida durante audiência. O depoimento durou cerca de 30 minutos, conforme apurado pela reportagem.

Segundo a defesa de Reinaldo, representado pela advogada Herika Cristina dos Santos Ratto, o acusado negou participação no crime. “O Reinaldo nega. Ele esclareceu que não houve essa extorsão mediante sequestro”, afirmou.

Por coincidência, como a Justiça agenda com antecedência as audiências em processos criminais, as oitivas ocorreram um dia após a transferência de Palermo da Bolívia para Mato Grosso do Sul, sob forte esquema de segurança montado pela Polícia Federal brasileira e pela força antidrogas boliviana. O narcotraficante desembarcou em Campo Grande na tarde de quarta-feira (27), após ser transportado em aeronave da PF sem rastreamento público.

Vida no crime

Apontado pelas autoridades como liderança no PCC (Primeiro Comando da Capital), Palermo estava foragido desde 2020. Ele acumula aproximadamente 126 anos em condenações por tráfico internacional de drogas, roubos e sequestros.

O episódio mais conhecido da ficha criminal ocorreu em agosto de 2000, quando liderou o sequestro de um Boeing 727 da Vasp que fazia a rota Foz do Iguaçu-Curitiba. Na ocasião, homens armados renderam tripulação e passageiros e obrigaram o piloto a pousar em pista clandestina no Paraná para roubar cerca de R$ 5,5 milhões em malotes do Banco do Brasil transportados na aeronave.

As investigações apontam que, após o episódio, Palermo passou a atuar no tráfico internacional de cocaína, utilizando rotas entre Bolívia e Brasil. Em 2017, ele foi alvo da Operação All In, da Polícia Federal, que investigou organização criminosa responsável pelo transporte aéreo e terrestre de cocaína. Mais tarde, acabou condenado pela Justiça Federal em Campo Grande.

O nome do narcotraficante também ficou ligado a um dos maiores escândalos do Judiciário sul-mato-grossense. Em 2020, Palermo deixou o Presídio Federal de Campo Grande após conseguir prisão domiciliar concedida pelo desembargador Divoncir Schreiner Maran durante a pandemia da covid-19. A decisão posteriormente levou à investigação do magistrado sob suspeita de venda de sentença. Depois de obter liberdade, Palermo rompeu a tornozeleira eletrônica e desapareceu.

Sequestro da filha

Foi justamente o sequestro da filha, ocorrido sete meses atrás em Campo Grande, que recolocou Palermo no radar das forças de segurança brasileiras. Conforme a investigação da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, o crime teria sido motivado por disputa envolvendo R$ 50 mil ligados ao narcotráfico.

Segundo o inquérito, a jovem foi atraída pelo próprio pai. Palermo ligou para ela afirmando que enviaria dinheiro para ajudar no tratamento de saúde da avó materna, que está acamada. Quando saía do trabalho, na região central de Campo Grande, ela entrou em um carro ocupado por dois homens. Conforme relato registrado na investigação, os sequestradores afirmaram que queriam receber dinheiro do “velho”, apelido atribuído a Palermo.

A vítima foi levada para uma casa na região das Moreninhas, onde permaneceu em cárcere. Durante o período em que ficou sequestrada, sofreu agressões físicas e psicológicas. Os criminosos enviaram fotografias dela amarrada para familiares, além de mensagens com ameaças de morte. Em um dos áudios enviados ao marido da vítima, os sequestradores afirmavam: “Esse é o último áudio que você vai ouvir dela”. Depois, encaminhavam mensagens da jovem dizendo “eu amo vocês”.

O marido procurou a Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco, Assaltos e Sequestros), que passou a monitorar o caso. Durante as negociações, Palermo chegou a conversar por telefone com o avô materno da vítima e com o genro. Segundo a investigação, ele afirmava que nada aconteceria à filha caso “devolvessem o dinheiro” e dizia que estava sendo ameaçado.

A jovem foi libertada posteriormente na região das Moreninhas e resgatada após ligar para o marido a partir de uma loja de conveniência. Conforme a Polícia Civil, ela confirmou aos investigadores que o pai teria ordenado o sequestro e informou que Palermo estava escondido na Bolívia junto da mãe dela. A partir daí, teve início a investigação conjunta entre a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, a Polícia Federal e a FELCN (Fuerza Especial de Lucha Contra el Narcotráfico) boliviana, que culminou na prisão do narcotraficante nesta semana, em Cotoca, cidade próxima a Santa Cruz de la Sierra.

Ainda conforme apurado no Fórum de Campo Grande, a Justiça marcou nova audiência para o dia 8 de junho, quando o avô materno da vítima deverá ser ouvido no processo.

*Fonte: Campo Grande News. 

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