Bernal deixa a Câmara de Campo Grande pós sessão de votação da perda de mandato em 2014.
(Foto: Marcelo Victor/Arquivo)
O corumbaense Alcides Jesus Peralta Bernal, que morreu na madrugada desta segunda-feira, 13 de julho, aos 60 anos, na véspera de seu aniversário, viveu uma trajetória de “azarão” a homicida nos últimos 14 anos.
O advogado Bernal era um radialista famoso, por 18 anos na FM Cidade, e tinha vaga garantida a cada eleição no Poder Legislativo. Foi vereador por dois mandatos na Câmara Municipal de Campo Grande e em 2010 foi eleito deputado estadual.
Mas em 2012, numa candidatura estilo “azarão”, termo usado no turfe para quem tem baixa probabilidade de vitória, Bernal entrou na corrida pela Prefeitura de Campo Grande. O cenário político era de hegemonia do então PMDB (atual) MDB, mas o candidato do PP se sagrou campeão no segundo turno. Sem aliados, lançou chapa pura, contra outros seis adversários.
Em 28 de outubro de 2012, Bernal foi eleito com 62,55% dos votos (270.927), derrotando Edson Giroto (MDB), e se tornou o 62º prefeito de Campo Grande.
Porém, dois anos depois, na noite de 12 de março de 2014, foi o primeiro prefeito cassado pela Câmara Municipal na história de Campo Grande. Perdeu por 23 votos a favor e 6 contra, sob acusações de nove infrações político-administrativas relacionadas a contratos emergenciais com as empresas Salute, Jagás e Mega Serv.
Ele teria criado situações emergenciais previsíveis para justificar contratações sem licitação, além de cometer irregularidades em processos licitatórios, negligenciar interesses do município e provocar gastos maiores aos cofres públicos. A denúncia sustentou que essas emergências foram, na prática, “fabricadas” pela própria administração.
O resultado da votação mostrou que Bernal havia vencido nas urnas, mas sempre patinou na articulação política em meio à maioria de parlamentares oriunda da chapa de oposição.
O retorno à cadeira de prefeito foi em agosto de 2015, após a operação Coffee Break, que afastou o então prefeito Gilmar Olarte (que era vice) e apontou conluio entre vereadores e empresários para a derrubada do mandato de Bernal.
Segundo o relatório do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), havia indícios de que vereadores, ex-vereador, empresários e articuladores políticos formaram uma espécie de engrenagem para comprar apoio à cassação. A investigação citou suspeitas de corrupção ativa, corrupção passiva e associação criminosa.
A investigação descobriu reuniões, onde eram oferecidas vantagens para garantir votos contra Bernal na Câmara. O Gaeco também encontrou movimentações financeiras consideradas incompatíveis com a renda declarada de alguns investigados. Um exemplo citado foi de um vereador que declarou R$ 393 mil em 2013, mas movimentou R$ 4,3 milhões nas contas.
A operação ainda identificou documentos, mensagens, remessas de dinheiro, inclusive para contas no exterior, e até um “diário” em tablet da esposa de um dos suspeitos, que registraria articulações pela cassação antes mesmo da conclusão da Comissão Processante.
Bernal concluiu o mandato, mas não conseguiu a reeleição em 2016, sendo derrotado por Marquinhos Trad (PV). Após seguir com uma carreira vacilante sem conseguir voltar a ter proeminência no cenário político, Alcides Bernal ressurgiu no noticiário policial, na tarde de 24 de março de 2026. O motivo: matou um homem com dois tiros.
O crime aconteceu na Rua Antônio Maria Coelho, em Campo Grande. O fiscal tributário Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, havia ido ao local acompanhado de um chaveiro para tomar posse da casa, adquirida após procedimento ligado à CEF (Caixa Econômica Federal), que havia retomado o imóvel de Bernal por dívida de financiamento. O ex-prefeito chegou e matou o fiscal.
Preso, Bernal infartou na prisão e passou por cirurgia cardíaca na Santa Casa de Campo Grande. Ele retornou ao Presídio Militar Estadual, mas teve que ser levado ao hospital na tarde de sábado, onde faleceu.
Fonte: Campo Grande News
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