Avó materna segura brinquedos dos netos.
(Foto: Laucymara Ayala)
A brutalidade do feminicídio deixa marcas profundas e imediatas que muitas vezes silenciam o futuro de famílias inteiras. Em agosto de 2025, em uma fazenda na região de Corumbá, um menino de 6 anos e uma menina de 8 anos testemunharam o assassinato a tiros de sua mãe, uma jovem de apenas 22 anos. O autor do crime, com quem a vítima teve um relacionamento de seis meses, está preso, mas ainda aguarda julgamento. No rastro dessa tragédia, a responsabilidade de criar os dois órfãos — além de outro filho de 7 anos — recaiu inteiramente sobre os ombros da avó materna. Sem poder trabalhar fora para se dedicar exclusivamente aos cuidados e à segurança das crianças, ela encontrou no amparo do poder público a estrutura necessária para garantir a dignidade do lar.
A sobrevivência e o sustento dessa nova configuração familiar são viabilizados por meio da rede de proteção gerida pela Secretaria de Estado de Assistência Social e dos Direitos Humanos (Sead). Mensalmente, a família recebe o auxílio de R$ 1.621 através do programa Recomeços, criado na gestão do governador Eduardo Riedel. O valor permitiu à avó reconstruir o ambiente doméstico do zero, uma vez que pertences da família haviam sido retirados após o crime. Complementando a renda e assegurando a segurança alimentar dos netos, a avó utiliza o cartão do programa Mais Social, que injeta R$ 450 mensais para a compra de alimentos e itens de primeira necessidade.
As dores emocionais das crianças, provocadas pelo trauma severo de presenciar a violência, recebem atenção focada no ambiente escolar, onde os irmãos contam com acompanhamento psicológico contínuo. "A minha história é essa, de muita luta e sofrimento. Quero que este caso não seja esquecido", desabafa a avó, que mantém a identidade preservada para proteção própria e dos menores. "A gente tem que arrumar muita força, não se sabe mais de onde. O governo não se esqueceu de mim, hoje tenho essa ajuda imediata."
Rede de acolhimento e independência econômica
O programa Recomeços atua em duas frentes emergenciais no Mato Grosso do Sul. Além de amparar financeiramente e garantir assistência médica e psicológica para crianças e adolescentes órfãos do feminicídio, o projeto estende a mão para mulheres sobreviventes da violência doméstica. Quando cessa o risco iminente à vida e a mulher deixa a Casa Abrigo para Mulheres, o programa concede um salário mínimo mensal para subsidiar as despesas da nova rotina, além de um aporte adicional de até quatro salários mínimos voltado exclusivamente para a compra de móveis e estruturação do novo lar, conforme a escolha da beneficiária.
Segundo a secretária da Sead, Patrícia Cozzolino, o objetivo central é oferecer uma perspectiva real de autonomia para quem precisa romper ciclos de abuso. Atualmente, o programa Recomeços atende 22 pessoas no Estado, divididas entre mulheres que buscam reconstruir suas vidas após o acolhimento institucional e menores que perderam as mães para crimes de gênero. Paralelamente, o programa Mais Social atua de forma massiva no combate à vulnerabilidade econômica, alcançando cerca de 26 mil famílias sul-mato-grossenses que necessitam de suporte emergencial para garantir o básico na mesa.
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