A Mupan se estabeleceu como a primeira organização não governamental do Pantanal dedicada à incorporação da perspectiva de gênero na gestão das águas.
(Foto: Arquivo/Mupan)
A Mupan – Mulheres em Ação no Pantanal, celebra, esse mês, um quarto de século de uma trajetória socioambiental fundamental para a conservação e o empoderamento feminino no Pantanal e além. Fundada em 20 de agosto de 2000, a organização realizará cerimônia nesta sexta-feira (15), no BioParque Pantanal, a partir das 15h, com transmissão ao vivo a partir das 16h de Mato Grosso do Sul pelo link do zoom ou do youtube.
A Mupan se estabeleceu como a primeira organização não governamental do Pantanal dedicada à incorporação da perspectiva de gênero na gestão das águas. Seu objetivo central sempre foi fortalecer lideranças, principalmente mulheres, e comunidades tradicionais na defesa de seus territórios e na promoção da qualidade de vida da população pantaneira, aliada à conservação do bioma.
Desde sua criação, a Mupan enfrentou desafios notáveis para consolidar sua abordagem pioneira. No início, o enfoque de gênero e gestão da água foi recebido com estranheza, e a quebra de paradigmas representou um dos maiores desafios.
Áurea Garcia, diretora geral da Mupan, além de uma das fundadoras da organização, explica a motivação que deu origem à iniciativa: “A criação da Mupan foi impulsionada pela chegada das agendas internacionais aos contextos locais. No final dos anos 1990 e início dos anos 2000, essas discussões começaram a se materializar no Brasil, muito influenciadas pela Rio 92. Entre os temas que ganharam força estava o da gestão das águas, de gênero, especialmente para ampliar a participação das mulheres nos espaços de tomada de decisão. Foi nesse cenário que nasceu a Mupan, para garantir que essas pautas globais encontrassem eco e aplicação no território pantaneiro”.
Pesquisas iniciais, como a de 2007, revelaram a disparidade na participação feminina em espaços de tomada de decisão: apenas 14% de mulheres estavam presentes em comitês de bacia e conselhos estaduais de recursos hídricos, enquanto em atividades locais, essa participação superava 80%. Atualmente, essa representatividade já ultrapassa 30% nos espaços de decisão, em paralelo aos esforços impulsionados pela Mupan.
Pioneirismo e formação de lideranças
Durante seus primeiros 15 anos, a Mupan se concentrou na mobilização de conhecimento, com foco em processos formativos, fomentando a participação em redes e coletivos. Liderou diálogos com governos, o setor privado, comunidades e outras organizações não governamentais (ONGs) no Pantanal e em instâncias nacionais.
Entre os marcos importantes de atuação, a Formação GAEA (Gênero, Água e Educação Ambiental), realizada entre 2013 e 2016, que consolidou o papel da Mupan como referência na gestão das águas com enfoque de gênero. A Formação GAEA alcançou mais de 150 lideranças e foi reconhecida pela ONU Mulheres como Boa Prática em Capacitação e Igualdade de Gênero, sendo também selecionada para o Catálogo de Experiências de Mulheres em Reservas da Biosfera pelo IberoMaB.
A Mupan tem sido inovadora, conseguindo traduzir o pensamento criativo em ações concretas que contribuem para políticas e conservação a longo prazo, por meio de iniciativas como a Formação GAEA e a Iniciativa Pantanal Poética, que rompeu barreiras ao integrar arte, ciência e saberes comunitários.
Parcerias estratégicas e atuação em Políticas Públicas
A trajetória da Mupan foi significativamente impulsionada pela parceria estratégica com a Wetlands International Brasil, que se estabeleceu no país em 2017. Rafaela Nicola, diretora executiva da Wetlands International Brasil e diretora técnico-científica da Mupan, destaca a sinergia dessa união: “O escritório da Wetlands International Brasil foi constituído através de um processo de cooperação com a Mupan. Construímos muito mais do que uma parceria institucional, criamos pontes entre o local e o global, unindo vozes do território às estratégias de conservação internacional. É uma união que fortalece nossa atuação e reafirma que cuidar das áreas úmidas é também garantir justiça social, igualdade de gênero e dignidade nos territórios”.
Essa parceria alavancou a influência em políticas públicas e o envolvimento de outras comunidades em programas como o Corredor Azul e a Iniciativa AquaREla Pantanal.
A Mupan tem sido um agente proativo na construção e articulação de políticas públicas socioambientais, participando em diferentes espaços como a criação da Comissão Interinstitucional de Educação Ambiental (CIEA/MS) em 2000, e da Câmara Técnica de Gestão de Recursos Hídricos Transfronteiriços (CTGRHT) do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) 2003.
A organização também desempenhou um papel essencial na criação do Programa Estadual de Educação Ambiental (ProEEA/MS) em 2017 e contribuiu para a inclusão de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) na Lei do Pantanal em 2025.
Recentemente, a Mupan foi eleita para compor o plenário do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) para o biênio 2025–2027, um reconhecimento da sua sólida atuação.
Legado de transformação no Pantanal
A Mupan se destaca por materializar agendas internacionais nos territórios locais, adaptando-as às realidades e necessidades específicas. Áurea Garcia ressalta: “Desde a criação da Mupan, temos trabalhado em diversas perspectivas para que as agendas internacionais se materializem nos territórios. Isso se dá por meio de diferentes processos para a inserção dessas pautas no cotidiano de variados atores, com dedicação a diversas articulações”.
A celebração dos 25 anos da Mupan reflete uma trajetória de coragem, afeto e compromisso coletivo, tecida a partir da escuta sensível e da cocriação com mulheres e comunidades que ousam transformar seus territórios. A organização continua sua missão de ampliar vozes e fortalecer modos de vida diversos, com foco na justiça socioambiental e na resiliência do Pantanal.
Receba as notícias no seu Whatsapp. Clique aqui para seguir o Canal do Capital do Pantanal.
Deixe seu Comentário
Leia Também
Corumbá anuncia ponto facultativo em abril para órgãos municipais
Corte no Judiciário de MS reduz salários e impõe novo teto
PF investiga contrabando de cabelo humano em empresa de Corumbá
Vítimas de descontos indevidos do INSS têm mais 90 dias para contestar
Cidade Dom Bosco recebe veículo zero km para ampliar proteção social em Corumbá
MS define metas para o esporte até 2035 com foco em inclusão e alto rendimento
Motociclista fica ferido após queda acidental no anel viário de Corumbá
Filhote de cachorro que caiu em fossa é resgatado no Padre Ernesto Sassida
Sexta-feira com previsão de temporais e temperaturas amenas no Pantanal