Lula fala sobre a MP que proíbe as bets no Brasil.
(Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)
O governo federal publicou, nesta sexta-feira, 25 de setembro, uma Medida Provisória (MP) que extingue o mercado de apostas e jogos on-line no país. A norma proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das chamadas "bets" em território nacional. Com a assinatura do texto, as plataformas autorizadas estão impedidas de receber novas apostas e devem iniciar um processo definitivo de desmobilização.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva justificou a dureza da medida comparando o vício em jogos virtuais a problemas graves de saúde pública e segurança. “Isso é como um câncer. Ou a gente tira o tumor, ou esse tumor vai matar a gente”, declarou o mandatário. Lula ressaltou que a decisão foi tomada após diálogos com a equipe econômica e relatos de tragédias familiares causadas pelo endividamento decorrente da ludopatia.
Calendário de transição e resgate do dinheiro
O texto estabelece regras rígidas para que os cidadãos recuperem os fundos mantidos nas plataformas. O cronograma oficial de desligamento funcionará em etapas sucessivas:
- Até 5 de outubro: Prazo final para o apostador realizar a retirada voluntária do saldo diretamente nos sites e aplicativos.
- 6 de outubro: Todos os sites e aplicativos das bets autorizadas deverão sair do ar permanentemente.
- 7 e 8 de outubro: As empresas de apostas repassarão aos bancos os saldos restantes vinculados ao CPF de cada usuário.
- 9 a 14 de outubro: Os bancos operantes realizarão a devolução integral dos valores aos clientes.
- A partir de 14 de outubro: A Caixa Econômica Federal atuará como intermediária para pagar quem enfrentar impedimentos no circuito bancário tradicional.
Ofensiva contra o mercado ilegal e reforço policial
Para garantir o cumprimento da MP, haverá uma intensificação nas ações de monitoramento e repressão a plataformas clandestinas. O Ministério da Justiça e Segurança Pública e a Polícia Federal receberão aportes estruturais para identificar e derrubar páginas da web, além de rastrear movimentações financeiras suspeitas. A estratégia central foca no bloqueio imediato de contas bancárias utilizadas para transações ilícitas ligadas ao jogo.
Rombo bilionário na economia e colapso na saúde
A proibição reverte a liberação promovida pela Lei 13.756 de 2018, cuja regulamentação tardia ocorreu apenas no fim de 2023. O encerramento das atividades baseia-se em indicadores alarmantes levantados por órgãos técnicos ao longo de 2025:
- Prejuízo financeiro: O Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) apontou que as apostas provocaram um desfalque de R$ 62,5 bilhões no orçamento das famílias brasileiras em 2025.
- Custo social: O Ministério da Saúde estima um impacto de R$ 38,8 bilhões anuais associados aos danos dos jogos, incluindo gastos com tratamento de depressão, internações, assistência ao desemprego e demandas previdenciárias.
- Juventude em risco: Pesquisas indicam que 20,4% dos estudantes dos anos finais do ensino fundamental e médio já apostaram na internet. No 3º ano do ensino médio, a proporção atinge quase metade dos alunos (49,7%).
- Público feminino: Embora os homens liderem as estatísticas, 42% das mulheres brasileiras relatam já ter jogado ou manter o hábito ativo em plataformas virtuais.
Do ponto de vista neurológico, especialistas em saúde mental explicam que a dependência surge do estímulo intermitente de dopamina no cérebro sob a expectativa do ganho financeiro. Essa disfunção química altera a tomada de decisões, levando ao isolamento social, episódios depressivos e, em casos extremos, ao suicídio.
Impacto nos clubes de futebol
Diante do forte vínculo comercial entre as empresas de apostas e o esporte nacional, Lula minimizou o impacto financeiro da proibição sobre o futebol brasileiro. O presidente destacou que as cotas de patrocínio das bets representam entre 6% e 7% do orçamento médio das equipes.
"O que não dá é um time não ter consciência de que o seu torcedor já torce para o time, já vai no estádio, já compra camisa. O time quer pagar as dívidas com o dinheiro do torcedor pobre?", criticou o governante, lembrando que as principais conquistas da Seleção Brasileira e dos clubes ocorreram décadas antes do surgimento desse mercado.
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