Conferência Nacional das Mulheres Indígenas em 2025, em Brasília
(Foto: Agência Brasil)
Mato Grosso do Sul, estado que abriga uma das maiores populações indígenas do Brasil, incluindo etnias de relevância histórica na região, como os Kadiwéu e Guató, vive um paradoxo político. Levantamento do Observatório da Cidadania de Mato Grosso do Sul (OCMS) revela que, embora o estado registre um número expressivo de candidaturas indígenas, a chegada desses representantes aos espaços de poder ainda esbarra em barreiras significativas.
Entre 2014 e 2024, o estado registrou 676 candidaturas de pessoas que se autodeclararam indígenas. O número representa 2,7% do total de registros eleitorais em Mato Grosso do Sul, índice superior à média nacional, de 0,43%, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Apesar do número de candidaturas, a matemática das urnas mostra uma realidade diferente. Em dez anos, apenas 41 candidatos indígenas conseguiram se eleger, o equivalente a uma taxa de sucesso de 6%.
Outro ponto de atenção é o alcance dessas vitórias. Todos os 41 eleitos conquistaram cadeiras em Câmaras Municipais. Não houve registro de indígenas eleitos para prefeituras ou para cargos no Legislativo estadual e federal no período analisado.
As vitórias ocorreram em municípios como Amambai, Antônio João, Caarapó, Coronel Sapucaia, Dois Irmãos do Buriti, Douradina, Japorã, Miranda, Nioaque, Paranhos, Porto Murtinho, Sidrolândia e Tacuru.
Para o coordenador do Observatório da Cidadania de Mato Grosso do Sul, professor Samuel Oliveira, os dados ajudam a mostrar não apenas a participação eleitoral, mas também as lacunas de representação existentes.
“Dados abertos e compreensíveis tornam o processo eleitoral mais transparente. Ajudam a população a votar com mais informação, qualificam o debate público e mostram onde estão as lacunas de participação e de representação”, afirma.
Segundo o professor, as informações permitem identificar quem participa das eleições, quais grupos estão representados e quais ainda têm presença reduzida nos espaços de decisão. Para ele, esse acompanhamento também fortalece o controle social e contribui para combater a desinformação.
“No fim, isso fortalece a confiança da população nas instituições democráticas”, completa.
Barreiras além das urnas
A baixa conversão de candidaturas em mandatos, segundo Samuel, não pode ser explicada apenas pelo resultado das eleições. Indígenas, assim como outros grupos historicamente sub-representados, enfrentam desigualdades estruturais que dificultam a disputa por espaços de poder.
“Indígenas, como mulheres e outras minorias, enfrentam desigualdades estruturais. Apenas a presença demográfica não é suficiente para garantir representação política”, explica.
O professor também aponta que os povos indígenas contam com canais de representação administrativa, como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Ainda que esses órgãos tenham limitações e recursos reduzidos, eles funcionam como espaços institucionais para reivindicações e mobilizações.
“Ter um órgão como a Funai ou a Sesai, ainda que limitados e com poucos recursos, permite aos indígenas direcionarem parte de suas mobilizações nessa direção, e não tanto para as eleições”, afirma.
Por outro lado, aqueles que decidem disputar cargos eletivos encontram dificuldades dentro do próprio processo político. Segundo Samuel, as condições para a realização de campanhas são um dos fatores que ajudam a explicar a baixa quantidade de indígenas eleitos.
“Aqueles que se aventuram nos partidos e eleições enfrentam poucas condições para fazer campanha, o que reproduz ainda mais a escassez de representação política desses grupos”, pontua.
Dados ajudam a entender a representação
Para auxiliar no debate, o Observatório da Cidadania de MS (OCMS), ligado à Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com a Secretaria de Estado da Cidadania, mantém o Painel Povos Originários.
A plataforma reúne indicadores sobre população, educação, saúde, território, trabalho e renda. Os dados podem ser utilizados por gestores, pesquisadores e pela sociedade para acompanhar a realidade dos povos indígenas e contribuir para a formulação de políticas públicas.
O levantamento sobre a participação eleitoral ajuda a colocar em números uma questão que vai além da quantidade de candidaturas: a dificuldade de transformar presença demográfica e participação política em representação efetiva nos espaços de decisão.
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