Sexta-feira, 14 de Agosto de 2026
Desdobramento

Polícia revela como sequestradora caçou bebê em grupos de WhatsApp

14 ago 2026 - 11h02   atualizado às 11h10

Gesiane S. Lourenço

Polícia revela como sequestradora caçou bebê em grupos de WhatsApp Casal preso no paraguai acusado de sequestro. (Foto: Divulgação)

Em coletiva de imprensa realizada na manhã desta sexta-feira, 14 de agosto, a delegada Anne Karine Trevizan, titular da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DEPCA), revelou que a acusada, Suzilaine da Graça Costa, monitorou gestantes por um longo período. O objetivo era encontrar uma bebê com características específicas para satisfazer o desejo pessoal de ter uma filha. As informações foram apuradas e divulgadas pelo portal Campo Grande News.

A linha de investigação da Polícia Civil descartou sumariamente qualquer suspeita de venda de crianças, atuação de organizações criminosas ou conivência da mãe, uma adolescente de 17 anos. Conforme relatado pela delegada, Suzilaine arquitetou o plano para ficar com a posse da recém-nascida e usou as redes sociais como ferramenta de aproximação. Ela ingressou em grupos de WhatsApp voltados a trocas e doações em bairros e, ao longo de um mês, conquistou a confiança da família distribuindo roupas e fraldas, além de realizar visitas frequentes à residência da vítima.

A emboscada e as táticas de despiste

Ganhada a simpatia da adolescente, a criminosa tentou isolar a criança no dia anterior ao crime, inventando que trabalhava com produção de fotos e propondo um ensaio fotográfico. A família, contudo, barrou a saída da bebê devido ao tempo frio. No dia seguinte, Suzilaine mudou a estratégia: ofereceu R$ 100 para que a jovem cuidasse de uma suposta filha de seis meses — que, na verdade, era neta da sequestradora.

A delegada pontuou passos cruciais que comprovam a premeditação:

  • Falso cadastro: A suspeita criou uma conta em um aplicativo de transporte na véspera do crime para ocultar sua verdadeira identidade.
  • Cativeiro e abandono: Ela buscou a mãe, a irmã dela (de 13 anos) e a bebê, levando-as para um cativeiro com o apoio de um comparsa. As duas adolescentes foram abandonadas em um matagal posteriormente.
  • Disfarce de gênero: Antes de pegar a estrada, Suzilaine foi à casa de sua própria filha, onde trocou as vestes da bebê por roupas de menino e substituiu o bebê-conforto para despistar barreiras policiais.
Adolescentes, acompanhadas da mãe e de um policial militar, deixam a Depac Cepol e seguem para a Depca, onde o caso é apurado . Foto: Bruna Marques

Mentiras para o companheiro e histórico prisional

A viagem rumo à fronteira paraguaia foi feita ao lado do companheiro, Alex Melo de Abreu, que tinha conhecimento do rapto. Para segurar o parceiro após o término do relacionamento, Suzilaine inventou que estava grávida e, mais tarde, sustentou a mentira dizendo que havia sofrido um aborto com curetagem na Santa Casa — fato que o hospital e as investigações provaram ser falso.

O histórico da acusada ajuda a explicar o perfil traçado pela DEPCA. Embora já seja mãe de três filhos, nenhum deles foi criado por ela, mas sim pela avó. A delegada Anne Karine Trevizan explicou que Suzilaine passou a maior parte da infância e da adolescência de seus filhos biológicos cumprindo pena na prisão, o que reforça o comportamento reincidente e a desconexão com a maternidade legal.

Alvo duplo e o golpe da "falsa facção"

O avanço das investigações revelou que a audácia de Suzilaine poderia ter feito outras vítimas. Após a ampla divulgação do caso na imprensa, outra mãe procurou a DEPCA relatando ter sido abordada pela suspeita com o mesmo modus operandi de falsas doações. A polícia, contudo, confirmou que nenhuma outra criança chegou a ser levada, classificando as abordagens anteriores como atos preparatórios que não geraram novos indiciamentos. Diante disso, a delegada Anne Karine Trevizan emitiu um alerta formal para que as famílias redobrem a cautela com aproximações excessivamente benfeitoras em grupos de bairros.

Mesmo após ser capturada, Suzilaine recusou-se a confessar o plano de maternidade compulsória. Ela mantém a versão de que o rapto da recém-nascida foi motivado por uma acerto de contas decorrente de uma dívida de drogas. A DEPCA desmistificou o argumento, comprovando que a história foi inventada pela própria infratora para aterrorizar as adolescentes. O objetivo era fazê-las acreditar no envolvimento de uma facção criminosa e, por medo de retaliação, dissuadi-las de procurar as autoridades. A polícia pontuou enfaticamente que o caso é isolado e que não existe qualquer indício de tráfico internacional de crianças ou comércio de bebês.

Mãe adolescente em entrevista à impresa na capital. Foto: Osmar Veiga

Cativeiro pago e comparsas perigosos

A estrutura montada para o crime envolveu o pagamento de terceiros e revelou o histórico de alta periculosidade dos envolvidos. Na manhã de sábado (8), a equipe investigativa estourou o cativeiro utilizado pelo grupo em Campo Grande. No local, um homem foi preso em flagrante após confessar que cedeu o imóvel para abrigar a infratora e a bebê pelo valor de R$ 1.000. Ele permanece atrás das grades.

O desfecho do resgate ocorreu na madrugada de domingo (9), em uma residência localizada no cruzamento das ruas Alejo García e Coronel Martínez, no bairro Virgen de Caacupé, em Pedro Juan Caballero. No imóvel, as forças de segurança prenderam Suzilaine e seu companheiro, Alex Melo de Abreu. Durante a abordagem, os policiais constataram que Alex utilizava documentos falsos para esconder que era um foragido da Justiça, com um mandado de prisão em aberto pelo crime de homicídio.

Após a incursão tática, a recém-nascida recebeu atendimento médico de urgência no Hospital Regional paraguaio, sendo transferida em seguida para o Conselho Tutelar de Ponta Porã. A bebê retornou a Campo Grande na terça-feira (11) e, após a conclusão do inquérito policial que indiciou formalmente os três envolvidos, foi devolvida em segurança aos braços da mãe na quinta-feira (13). O caso agora segue para o Poder Judiciário.

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