Sexta-feira, 11 de Setembro de 2026
Investigação

Relatório do MP aponta "cascalho" até em avenida já asfaltada de Campo Grande

21 jun 2023 - 06h58   atualizado em 03/03/2026 às 09h57

Gesiane S. Lourenço

Relatório do MP aponta "cascalho" até em avenida já asfaltada de Campo Grande Equipe do Gaeco visitou empresa investigada no dia 15 de junho. (Marcos Maluf/Arquivo/CG News)

Motivada por denúncia anônima, em tom de desabafo, a investigação da 31ª Promotoria de Justiça levou três anos para desencadear a Operação Cascalhos de Areia, que foi às ruas na quinta-feira passada, dia 15, atrás de mais provas contra esquema de corrupção milionário em contratos da Prefeitura de Campo Grande. 

Mas, ao longo da investigação, a “lupa” dos servidores do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) que foram a três bairros da Capital verificar se a limpeza, nivelamento e cascalhamento de vias sem asfalto realmente estavam sendo feitos, não encontrou “pedra sobre pedra”.

Equipe do Geoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), em apoio à 31º Promotoria, esteve em 10 vias nos bairros São Conrado, Jardim Carioca e Jardim Noroeste, que deveriam receber manutenção pelas empresas Engenex Construções e A. L. dos Santos Ltda., ambas investigadas na Cascalhos de Areia, mas só encontrou areião, lama e mato, conforme relatório, datado de 21 de setembro de 2022.

As avenidas com melhores condições de trafegabilidade, curiosamente, não precisariam de manutenção, conforme a investigação, porque já são pavimentadas. 

Sem asfalto

Entre as ruas visitadas pelo Geoc está a Cairiri, uma viela no São Conrado cujo nome homenageia extinta tribo indígena. O que sumiu do local também, ou nunca apareceu, na opinião dos investigadores, foram os 18 metros cúbicos de cascalho que a Engenex cobrou da administração municipal para aplicar em 9 de julho de 2021.

Na data da vistoria, dia 14 de setembro do ano passado, a equipe do MP apontou a “inexistência de indícios mínimos que remetam a qualquer tipo de intervenção ou melhoria recente na via”. Moradores foram entrevistados e revelaram até que chegaram a pedir socorro à empreiteira que fazia tapa-buracos em ruas asfaltadas nas proximidades, conforme a investigação constatou e fotografou (foto de abertura da matéria).

A Rua Coronel Athos, também no São Conrado, foi fiscalizada pelos servidores empenhados em conferir a prestação de serviços da Engenex 50 dias depois de, supostamente, ter sido cascalhada, mas moradores disseram “de forma unânime e contundente”, segundo relatório, que não havia aplicação de revestimento primário por lá “há muito tempo”. Na via, há “material nativo aflorado” – mato, que provavelmente não sobreviveria à passagem de patrolas.

O MP estranhou ainda que a Engenex declarou ter aplicado 378 metros cúbicos de cascalho na Rua Vitória Zardo, ainda no São Conrado. Seria 1 caminhão despejado a cada 28 metros, calcularam os investigadores, que completam: “o que claramente não aconteceu”.

No Jardim Carioca, na Rua Elisa Regina, onde a Engenex também diz ter estado, havia até lama. A equipe do Geoc esteve ainda nas ruas Silvio Aiala Silveira e Elizete Cardoso, no Carioca, mas só encontrou poeira. Nas ruas Vaz de Caminha, Ataufo Paiva e Osasco, no Jardim Noroeste, idem. 

Vias pavimentadas

Outra constatação que ligou o radar da investigação para fraude em contratos da Engenex foi a de que as avenidas Lúdio Martins Coelho e Das Mansões são asfaltadas, mas foram inclusas nas lista de serviços prestadores em contrato exclusivo para a “execução de manutenção de vias não pavimentadas”. 

A empresa alega, conforme medições entregues à prefeitura, que “limpou” três trechos da Lúdio Coelho – total de 2,9 mil metros quadrados – e ainda um trecho da Avenida das Mansões. Mas para o MP, nesses dois casos, “inexiste a possibilidade de atuação da empresa”. 

Denúncia e investigação

A denúncia, assinada por “servidores da comissão de licitação” da Prefeitura de Campo Grande, diz que contrato do município com a A. L. dos Santos é de “fachada”, porque os serviços não são executados e os milhões pagos são usados para a compra de imóveis para o ex-prefeito Marquinhos Trad e sua família. 

A escolha do esquema em usar vias não pavimentadas é justamente para dificultar a fiscalização, ainda de acordo com os denunciantes.

Na carta, enviada ao Ministério Público em junho de 2020, as pessoas, que dizem ser funcionários públicos, dizem frases do tipo "não aguentamos mais" e confessam: “nos obrigam a fraudar licitação, já que a ordem vem de cima”.

A partir do “bilhete” anônimo, a 31ª Promotoria instaurou investigação que, na semana passada, culminou na operação para cumprir 19 mandados de busca e apreensão. Os alvos foram as empresas, empreiteiros e servidores públicos.

A força-tarefa – que também conta com a ajuda do Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado) – agora tentará provar que envolvidos cometeram crimes de peculato, corrupção, fraude à licitação e lavagem de dinheiro, relativos a contratos para manutenção de vias não pavimentadas e locação de maquinário de veículos na Capital. 

Em Corumbá

Em Corumbá, a vereadora Raquel Bryk solicitou que as investigações da “Operação Cascalhos de Areia” sejam estendidas ao Município de Corumbá, tendo em vista o fato de a empreiteira investigada ter contrato para realização de serviços na região pantaneira.

O pedido de Raquel foi direcionado ao GECOC (Grupo Especial de Combate a Corrupção) e ao GAECO (Grupo Especial de Repressão ao Crime Organizado), bem como aos promotores Adriano Lobo e Humberto Lapa Ferri, respectivamente da 29ª e 31ª Promotoria de Justiça do Patrimônio Público de Campo Grande, e ainda a Alexandre Magno Benites de Lacerda, bem como ao promotor Luciano Conte, da 5ª Promotoria de Justiça de Corumbá, e ao Procurador-Geral de Justiça do Ministério Público de Mato Grosso do Sul.

 

 

* Informações do CG News

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