Estudantes participam de visita mediada sobre memória e cultura no centro de Corumbá.
(Foto: Capital do Pantanal)
Corumbá encerrou, na sexta-feira (22), a programação da 24ª Semana Nacional dos Museus com a visita mediada “Corumbá, Museu a Céu Aberto: O Sarobá de Lobivar”, atividade que reuniu estudantes, educadores e agentes culturais em um percurso histórico pelas ruas do centro da cidade.
A ação aconteceu na Casa do Artesão de Corumbá e foi guiada por Marcelle Saboya, gerente de Fomento e Difusão Cultural da Fundação de Cultura de Corumbá.
A atividade integrou a mobilização nacional promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), que, neste ano, trouxe o tema “Museus Unindo um Mundo Dividido”, incentivando reflexões sobre memória, pertencimento e diversidade cultural em museus de todo o país.
Durante o trajeto, os participantes percorreram a Rua Dom Aquino até o mirante ao fim da Rua Ladário, observando detalhes arquitetônicos, ladrilhos históricos e elementos que ajudam a contar a trajetória urbana de Corumbá. Entre os participantes estiveram estudantes do 1º, 2º e 3º anos do ensino médio da Escola Estadual Otacílio Faustino da Silva, acompanhados pelas professoras Graziele Souza Santos e Márcia Cristina do Carmo.
Segundo Marcelle Saboya, a proposta da visita foi transformar o próprio espaço urbano em instrumento de reflexão histórica e cultural. Ela destacou que a ideia de “Corumbá Museu a Céu Aberto” busca aproximar a população da memória da cidade. “A gente acredita nisso. É só andar que a gente vê que Corumbá já é um museu mesmo”, afirmou.
Marcelle explicou que o percurso também utilizou a literatura como ferramenta de interpretação da cidade, especialmente a obra do escritor Lobivar Matos, conhecido por retratar personagens marginalizados e invisibilizados socialmente nas décadas de 1930.
De acordo com ela, a escolha do Sarobá como eixo da atividade dialoga diretamente com o tema nacional da Semana dos Museus. O antigo bairro, localizado na região onde hoje está a área do Borrowski e da cervejaria, era historicamente ocupado por negros, indígenas e populações excluídas da sociedade corumbaense da época. “Se a temática do museu é unir mundos divididos, a gente precisava falar dessas pessoas que não estavam inseridas na sociedade e dessa história que não pode ser esquecida”, ressaltou.
Durante a caminhada, a mediadora também apresentou aos estudantes transformações históricas da cidade, explicando a origem de prédios históricos, largos urbanos e construções antigas espalhadas pelo centro de Corumbá. A Casa do Artesão, ponto de partida da atividade, por exemplo, já funcionou como fortificação e presídio.
A participação dos estudantes da Escola Otacílio Faustino da Silva também esteve ligada ao projeto Café Literário, desenvolvido desde 2019 e incorporado ao Projeto Político-Pedagógico (PPP) da unidade escolar. A iniciativa foi criada pelas professoras Márcia Cristina do Carmo, Graziele Souza Santos e Rosana Leite, com o objetivo de aproximar os estudantes da literatura regional e nacional por meio de experiências práticas e artísticas.

Segundo Márcia Cristina do Carmo, o projeto nasceu como uma forma de tornar a leitura mais próxima da realidade dos alunos, utilizando apresentações, pinturas, dramatizações, produção de cenários e releituras artísticas das obras estudadas. “Os alunos gostam dessas atividades práticas. Eles entram com tudo, preparam cenário, pintam parte da escola e transformam a leitura em arte”, explicou a professora.
Ao longo dos anos, o Café Literário já trabalhou obras e autores regionais, como Lucilene Machado, André Ramalho, Eduardo Mendes e Lorival Monteiro de Moraes. Neste ano, os estudantes estudam a obra de Lobivar Matos.
Márcia destacou que a escolha de Lobivar Matos possui forte ligação com a realidade social vivida pelos estudantes da escola, localizada em uma região periférica de Corumbá. “O Lobivar é uma grande pedida porque ele escreve sobre os excluídos. Como o Otacílio está numa região periférica, a gente vê que os alunos se identificam demais com essas histórias”, afirmou.
A professora ressaltou ainda que a literatura regional tem ajudado a fortalecer o sentimento de pertencimento dos estudantes, além de contribuir no combate à evasão escolar. Segundo ela, o Café Literário surgiu justamente para criar vínculos afetivos entre os alunos e a escola.
“Quando eles compram essa ideia, passam a querer ler, participar e sonhar. Isso evita a evasão porque eles deixam de enxergar a escola apenas como uma sala fechada e passam a viver aquele espaço”, explicou.
Ela também destacou que a experiência de caminhar pelos espaços retratados nas narrativas de Lobivar Matos ajuda os estudantes a compreender melhor a própria cidade.
“Agora, passando pelos lugares onde a história aconteceu, quando eles lerem as obras isso vai fazer um sentido enorme. Eu mesma consigo entender muito mais essa área geográfica a partir dos contos de Lobivar Matos”, relatou.
A professora Graziele Souza Santos afirmou que conheceu mais profundamente a obra de Lobivar Matos por meio da colega Márcia Cristina do Carmo e destacou que atividades como a visita mediada ajudam a ampliar o repertório cultural dos estudantes. Segundo ela, aproximar os jovens da literatura regional é também uma forma de afastá-los do excesso de telas e da superficialidade das redes sociais. “Se o aluno não está inserido nesses momentos de literatura, de cultura, de história e de pertencimento, ele fica muito raso. Nós precisamos mostrar que existe um mundo fora da tecnologia e das redes sociais”, afirmou.
Graziele ressaltou que o objetivo das professoras é tornar o aprendizado mais atrativo e significativo, levando os estudantes para experiências culturais que despertem memória, identidade e pertencimento.

“Nós temos que tirar esse aluno da sala de aula e mostrar que existe um mundo fora da escola que pode ser mais prazeroso do que esse mundo superficial das telas”, destacou.
A professora explicou ainda que muitos estudantes desconheciam a própria história da cidade, incluindo espaços históricos como a Casa do Artesão e o antigo Sarobá. Para ela, a vivência presencial ajuda os jovens a compreender melhor a cultura corumbaense. “Muitos alunos aqui não conheciam a história da Casa do Artesão, não sabiam que foi a primeira cadeia de Corumbá, não conheciam a história do Sarobá e nem Lobivar com profundidade”, contou.
Graziele também destacou que a obra do escritor continua atual e próxima da realidade dos estudantes da periferia da cidade.
“A história de Lobivar grita dentro da nossa realidade periférica do Otacílio”, afirmou.
Segundo a educadora, experiências como essa deixam marcas duradouras na memória dos alunos e reforçam o papel social da educação.
“Pode passar 10 ou 20 anos. Eles vão lembrar que estiveram aqui, que conheceram essas histórias. A educação e a arte ainda podem salvar”, declarou.
Além da visita mediada, a programação da 24ª Semana Nacional dos Museus em Corumbá contou com exposição artística, palestra sobre mapas etnolinguísticos dos povos originários do Brasil, roda de vivência com artesãos locais e contação de histórias. Entre os destaques esteve a exposição “A-122”, do artista Jamil Canavarros, que aborda o feminicídio.
Marcelle Saboya reforçou que transformar as ruas em espaços de memória é também uma estratégia de preservação cultural. “A gente só preserva aquilo que conhece. O que a gente não conhece, a gente não dá valor”, afirmou.
A visita reforçou ainda a influência cultural do antigo Sarobá na identidade corumbaense, especialmente nas tradições afro-brasileiras, nos festejos populares e na presença indígena na região pantaneira. Segundo Marcelle, manifestações culturais ligadas aos povos guatós e às comunidades negras seguem presentes na cidade até hoje, inclusive no artesanato produzido em Corumbá.
*Texto de Juliana Oliveira, revisado por Danielly Carvalho.
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