Terça-feira, 24 de Março de 2026
Política

Divisão na esquerda abre caminho para avanço da direita na Bolívia

04 ago 2025 - 13h57   atualizado em 03/03/2026 às 09h33

Danielly Carvalho

Divisão na esquerda abre caminho para avanço da direita na Bolívia Com Evo isolado e oposição fragmentada, direita lidera corrida presidencial marcada para o dia 17 de agosto. (Foto: Recebida pelo Capital do Pantanal)

A menos de duas semanas das eleições gerais na Bolívia, o cenário político do país andino é de polarização e incerteza. O ex-presidente Evo Morales, impedido de se candidatar novamente, tem defendido o voto nulo e atacado antigos aliados. Essa postura tem aprofundado a crise interna no Movimento ao Socialismo (MAS), legenda que esteve no poder durante grande parte dos últimos 19 anos.

A divisão entre os principais nomes da esquerda abriu espaço para o crescimento da direita, que agora lidera as pesquisas com os candidatos Samuel Medina, um empresário que já disputou outras eleições, e Jorge "Tuto" Quiroga, veterano na política boliviana.

A candidatura de Medina, da Alianza Unidad, aparece como favorita, seguida por Quiroga, da Alianza Libertad y Democracia. Juntos, eles somam cerca de 47% das intenções de voto, segundo levantamento divulgado pelo jornal El Deber no último domingo (03). Apesar disso, ainda não está garantida a vitória em primeiro turno, que só ocorre se o candidato tiver mais de 50% dos votos válidos ou 40% com dez pontos de vantagem sobre o segundo colocado. Um segundo turno está previsto para 19 de outubro, caso necessário.

Crise no MAS e rachas na esquerda

A disputa interna no MAS enfraqueceu o principal partido da esquerda boliviana. O presidente Luis Arce, que chegou ao poder em 2020 com mais de 50% dos votos, decidiu não buscar a reeleição, desgastado pela queda de popularidade e por conflitos com Evo Morales. No lugar, indicou seu ex-ministro Eduardo De Castillo, que amarga cerca de 2% das intenções de voto e enfrenta resistência dentro da própria base do partido.

Outro nome da antiga aliança de Evo, o atual presidente do Senado, Andrónico Rodríguez, também entrou na disputa. Ex-líder cocaleiro como Morales, ele deixou o MAS para concorrer pelo partido Alianza Popular. Desde então, virou alvo de ataques do ex-presidente, que o chama de “traidor”. Rodrígues já chegou a ter 14% nas pesquisas, mas agora figura com apenas 6%.

Já Eva Copa, ex-senadora do MAS e atual prefeita de El Alto, chegou a lançar candidatura presidencial pelo recém-criado partido Morena. No entanto, no fim de julho, ela anunciou sua retirada da corrida, alegando falta de estrutura partidária para disputar o cargo.

A série de rupturas levou o professor de sociologia da Universidade Federal do Ceará, Clayton Mendonça Cunha Filho, a apontar que Evo “implodiu o partido” ao insistir em se manter como a principal figura do MAS. “Na ambição de ser o candidato eterno, Evo Morales implodiu o partido. [...] O MAS é uma legenda que, basicamente, é um grande agrupamento de muitas tendências”, analisou o especialista.

Segundo ele, com o modelo de eleição proporcional por lista fechada e o voto atrelado ao candidato à presidência, o MAS corre o risco de encolher drasticamente no Parlamento. “O maior e, em muitos sentidos, único partido com laços sociais efetivos e verdadeiramente nacional da Bolívia nas últimas duas décadas, corre o sério risco de literalmente desaparecer caso não atinja a cláusula de barreira vigente de 3% dos votos nacionais, demolido por disputas internas de liderança e o personalismo exacerbado de Evo Morales”, escreveu Clayton para o Observatório Político Sul-Americano.

Ascensão da direita

No vácuo deixado pela esquerda rachada, nomes da direita tradicional se destacam. Samuel Medina, que lidera as pesquisas, tem um passado ligado à centro-esquerda, mas hoje se alinha ao centro-direita. Ele foi ministro durante a onda de privatizações dos anos 1990 e disputou a presidência duas vezes, ficando em segundo lugar em 2014.

Jorge “Tuto” Quiroga também acumula experiência: foi ministro da Fazenda, vice-presidente em 1997 e chegou à presidência em 2001 após a renúncia de Hugo Banzer. Em 2005, foi derrotado por Evo Morales e, em 2019, atuou como porta-voz internacional do governo interino de Jeanine Áñez.

De acordo com o professor Cunha Filho, ambos representam uma direita tradicional, distante de uma extrema-direita. Mas o desafio que terão pela frente não será apenas governar, e sim lidar com o modelo político em vigor.

Constituição em xeque

O atual arranjo institucional da Bolívia foi moldado em 2009, durante o governo de Evo Morales, com a promulgação de uma nova Constituição que instituiu o Estado Plurinacional, reconhecendo a diversidade étnica e cultural do país.

Clayton Mendonça avalia que o próximo presidente não terá força suficiente para desmontar esse modelo, mesmo sendo crítico a ele. “Vai ser a primeira vez que um presidente eleito sob esse novo modelo do Estado Plurinacional não vai ter participado da construção desse Estado. [...] Sendo otimista, pode ser uma consolidação desse modelo. Você deixa de identificar esse formato de Estado com um projeto de governo, como muita gente às vezes trata, como se fosse um modelo só do MAS”, comentou à Agência Brasil.

Panorama eleitoral

Ao todo, a Bolívia elege em 17 de agosto, além do presidente e vice, 130 deputados e 36 senadores. O país tem cerca de 12 milhões de habitantes e faz fronteira com quatro estados brasileiros: Acre, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

A campanha ocorre em meio a episódios de tensão. Em junho, manifestações favoráveis à candidatura de Evo resultaram em bloqueios de estradas por 15 dias e ao menos quatro mortes. Enquanto isso, Morales enfrenta acusações graves: responde judicialmente por estupro de menor, caso que ele nega, e denuncia estar sendo perseguido politicamente.

Com a esquerda fragilizada, a eleição tende a se tornar um marco na história recente do país e pode selar o fim de uma era iniciada em 2006, com a chegada de Evo Morales ao poder pela primeira vez.

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