Quinta-feira, 19 de Março de 2026
Segurança

BR-262 e Corumbá consolidam rota do tráfico de drogas no coração do Pantanal

14 fev 2026 - 08h27   atualizado em 03/03/2026 às 09h33

Gesiane Sousa

BR-262 e Corumbá consolidam rota do tráfico de drogas no coração do Pantanal Apreensão de drogas efetivada pela PRF na BR 262. (Foto: Polícia Rodoviária Federal)

A fronteira do Brasil com a Bolívia, no coração do Pantanal, em Mato Grosso do Sul, voltou a chamar atenção de autoridades federais pela escalada de apreensões de cocaína e pelo fortalecimento de rotas logísticas que atravessam Corumbá e seguem rumo ao Sudeste.

O cenário envolve desde o transporte humano de droga engolida por “mulas” até grandes carregamentos escondidos em caminhões de minério e operações aéreas em pistas clandestinas espalhadas por áreas remotas, onde a fiscalização é limitada.

Corumbá, por sua posição geográfica, tornou-se um corredor natural para a cocaína produzida na Bolívia e também para fluxos que se conectam ao Paraguai. A região funciona como porta de entrada e ponto de redistribuição, sustentada por rotas rodoviárias e aéreas que facilitam tanto o tráfico pulverizado quanto o escoamento em escala industrial.

A prisão, na Bolívia, de Aguinaldo Barros Chalega — apontado como integrante do PCC e capturado em Santa Cruz de la Sierra antes de ser entregue à Polícia Federal em Corumbá — reforçou o peso estratégico da fronteira pantaneira como corredor internacional da cocaína. A captura ocorre em meio ao aumento de prisões e apreensões envolvendo “mulas” bolivianas que fazem a rota Santa Cruz de la Sierra/Cochabamba–Corumbá–Limeira–São Paulo.

Mulas e ônibus clandestinos

Apenas neste ano, já foram apreendidos cerca de 44 quilos de cocaína, sendo 40 quilos engolidos por transportadores. Só em Corumbá, 24 pessoas foram presas no período. Em Limeira (SP), a Polícia Federal prendeu 17 pessoas e apreendeu 17 quilos, consolidando a cidade como um dos destinos recorrentes do corredor que passa por Corumbá. O volume chama atenção porque, em todo o ano passado, foram presas 58 mulas — indicador de que 2026 já caminha para números recordes.

Militares do Exército fiscalizando ônibus de passageiros.Militares do Exército fiscalizando ônibus de passageiros. Foto: Divulgação/EB

O método é tão arriscado quanto lucrativo. A cocaína transportada no estômago expõe os carregadores ao risco de morte caso o invólucro se rompa, mas segue sendo um modelo altamente rentável. Estimativas citadas por agentes da Receita Federal apontam que o quilo comprado por cerca de US$ 2,5 mil na Bolívia já chega a US$ 9 mil em São Paulo, podendo atingir US$ 40 mil nos Estados Unidos, US$ 100 mil na Austrália e US$ 110 mil em países árabes, o que torna Corumbá um interessante centro de movimentação de coca-dólares _ única moeda aceita no tráfico de cocaína.

Em um único dia, em Corumbá, foram apreendidos 20 quilos em uma abordagem a dois ônibus clandestinos. A Receita estima, no entanto, que ao menos dez ônibus cruzem a rota com sucesso diariamente, o que poderia significar até 100 quilos por dia e cerca de três toneladas por mês escoando pelo corredor, para depois seguir ao exterior a partir de São Paulo. Agentes descrevem a operação como um “consórcio” do tráfico coordenado pelo PCC, com divisão de lucros, custos e perdas já contabilizadas no “balanço” do crime.

Os dados nacionais confirmam que o eixo de Mato Grosso do Sul é hoje um dos principais gargalos rodoviário do tráfico de cocaína no país. Em balanço divulgado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), a corporação registrou a apreensão de 44,3 toneladas de cocaína em 2025 nas estradas federais e nos Estados, sendo 13,7 toneladas em Mato Grosso do Sul — quase o dobro do volume interceptado em Mato Grosso (7,4 toneladas), segundo estado no ranking.

A PF apreendeu 73,1 toneladas de cocaína e garante que em 2025 bateu recorde na descapitalização do crime organizado, retirando das quadrilhas cerca de R$ 9,5 bilhões, boa parte em ativos do PCC. No mesmo levantamento, a BR-262, rota que parte de Corumbá e liga o Centro-Oeste ao Sudeste, aparece como a principal estrada de apreensão de cocaína, evidenciando que o fluxo captado em “mulas” já não é um fenômeno isolado, mas parte de uma engrenagem de escala compatível com o interesse de facções como o PCC e de redes estruturadas de logística e lavagem.

A lógica descrita por autoridades de segurança é a de uma engrenagem organizada e transnacional. Na CPI do Crime Organizado, em Brasília, o promotor Lincoln Gakiya, considerado uma das principais referências do País no enfrentamento ao PCC, alertou para o padrão de atuação da facção, que busca influência no nível municipal e regional, onde o Estado opera por meio de contratos, serviços, concessões e fiscalização. Segundo ele, o crime organizado não se move apenas pelo confronto armado, mas pela captura gradual de estruturas locais.

Gakiya também relatou que interceptações telefônicas já indicaram tentativas de financiamento político e apontou a fragilidade dos mecanismos de controle estatal. Em alguns casos, afirmou, bastaria uma consulta simples em fontes abertas para identificar que dirigentes e sócios de empresas, como ele fez na região da Grande São Paulo, eram investigados ou foragidos, o que revela falhas básicas de rastreamento.

BR-262 e o minério como camuflagem

No chão, o tráfico se apoia em logística pesada e rotas rodoviárias estratégicas. Nos últimos meses, Polícia Federal e PRF, que só há duas semanas firmaram acordo de cooperação para integrar os serviços, registraram sucessivas apreensões de cocaína escondida em caminhões que transportavam minério de ferro extraído do Morro de Urucum, em Corumbá. Em fevereiro de 2026, foram interceptados 69 quilos em Terenos (dia 9) e outros 100 quilos em Campo Grande (dia 6), em cargas que saíram de Corumbá e seguiam para destinos como Sete Lagoas (MG).

Tabletes estavam em meio a carga de minério em caminhão que saía de Corumbá.Droga camuflada na carga de minério. Foto: Divulgação/PRF

O histórico recente reforça o padrão: em novembro de 2025, a PRF apreendeu 629 quilos em Terenos. Outro caminhão bitrem vindo de Corumbá foi parado em Uberlândia (MG) com 420 quilos. Embora algumas cargas tenham destino declarado em Minas Gerais, investigadores apontam que a BR-262 é rota recorrente para levar droga ao Sudeste e, em muitos casos, ao Porto de Santos (SP), de onde a cocaína pode ser exportada para a Europa e outros mercados.

A utilização de cargas minerais para ocultar entorpecentes expõe uma dificuldade operacional: a região possui intenso tráfego de caminhões ligados à mineração, o que amplia o volume de transporte regular e cria oportunidades para infiltração do tráfico em cadeias logísticas formais. Para os investigadores, o desafio é separar o fluxo lícito do ilícito em uma área em que a fiscalização não consegue acompanhar o ritmo da circulação.

Pistas clandestinas e corredor internacional

Além do transporte terrestre e humano, o tráfico também mantém uma estrutura aérea em expansão. Pistas clandestinas se espalham pela fronteira com Bolívia e Paraguai e avançam pelo Pantanal sul-mato-grossense e mato-grossense, oferecendo alternativa rápida para transporte de cocaína em pequenas aeronaves e ampliando o alcance do crime organizado sobre áreas remotas, de difícil controle.

O quadro que se desenha é o de um Pantanal atravessado por rotas multimodais — rodovia, avião, ônibus clandestino e “mulas” — onde redes criminosas operam com capilaridade e escala crescente. A combinação entre geografia aberta, fiscalização limitada e alto valor do entorpecente no mercado internacional transforma Corumbá em uma espécie de entroncamento logístico do tráfico de cocaína na América do Sul.

A ofensiva contra o tráfico na fronteira já produziu prisões relevantes e reforça a leitura de que o PCC opera com tentáculos transnacionais na rota Bolívia–Paraguai–Brasil. Em Santa Cruz de la Sierra, a polícia boliviana capturou em maio de 2025 Marcos Roberto de Almeida, o “Tuta”, apontado como uma das principais lideranças da facção. Mais recentemente, Chalega foi preso na mesma cidade e entregue à Polícia Federal em Corumbá. Do outro lado da fronteira, em Pedro Juan Caballero, a Polícia Federal prendeu Sidney Augusto Magalhães, conhecido como “Alê” ou “Colt”, apontado como liderança do PCC no eixo fronteiriço e mantido sob prisão preventiva após negativa de soltura pela Justiça Federal.

Os casos reforçam que a disputa pelo corredor pantaneiro não se dá apenas no varejo e no transporte humano, mas também no controle de rotas e operadores instalados na faixa internacional. Para autoridades, o desafio é ampliar presença estatal, inteligência e fiscalização integrada em um território onde o crime consegue se mover por ar, estrada e rios com velocidade superior à capacidade de resposta do poder público.

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