Registro de Tatu Bola na Serra do Amolar, em Corumbá.
(Foto: Reprodução)
Neste dia 28 de julho, data em que o planeta celebra o Dia Mundial da Conservação da Natureza, a Serra do Amolar, localizada em Corumbá, reafirma sua posição como um dos santuários ecológicos mais importantes do mundo. Funcionando como uma verdadeira “arca” para a salvaguarda da biodiversidade, a região abriga mais de 200 espécies de animais monitoradas pelo Instituto Homem Pantaneiro (IHP). Desse total, pelo menos 10 espécies figuram sob elevado grau de ameaça de extinção, classificadas como “vulneráveis” ou “em perigo”. Entre os achados recentes mais emblemáticos desse esforço científico, destaca-se o raro registro de um casal de tatu-bola (Tolypeutes matacus), capturado em idade reprodutiva dentro de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).
O registro do casal de tatu-bola representa um marco histórico para a ciência e para as políticas públicas ambientais, pois a espécie enfrenta um cenário crítico de sobrevivência. Atualmente, o mamífero consta como "quase ameaçado" na plataforma SALVE, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança Climática (MMA), mas passa por um processo técnico de revisão que indica o agravamento de seu status para categorias mais severas de ameaça. O animal, que é o menor tatu do Brasil e o único capaz de se curvar até formar uma esfera perfeita para se proteger, é extremamente vulnerável aos incêndios florestais e aos efeitos extremos das mudanças climáticas que têm castigado o ecossistema pantaneiro nos últimos anos.
Década de dados e o uso de tecnologia na linha de frente
O achado na Serra do Amolar é o resultado direto de um programa estruturado de monitoramento de fauna e flora mantido pelo IHP há mais de 10 anos. A presença constante dos pesquisadores no território permitiu a criação de um banco de dados científico robusto e de longo prazo. Essas informações são fundamentais para que cientistas compreendam a dinâmica populacional dos animais silvestres, prevejam os impactos de desastres climáticos e orientem com precisão as estratégias de combate ao fogo na planície inundável.
Para mapear e proteger essa vasta fauna, o instituto faz a gestão de RPPNs e utiliza equipamentos tecnológicos de ponta, como armadilhas fotográficas e sistemas avançados de bioacústica. O analista ambiental do IHP, Luka Moraes, destaca que a equipe já havia identificado na região o tatu-canastra — o maior tatu do mundo — e agora celebra a presença do tatu-bola. Segundo ele, o monitoramento continuará focado na área para tentar registrar o nascimento de filhotes e mapear os hábitos do casal, gerando dados de relevância global.
"A nossa grande dedicação envolve conservar a biodiversidade pensando no território, nas suas interconexões e na coexistência com o ser humano. O monitoramento que realizamos por mais de 10 anos nos entrega dados que permitem estudar as espécies e buscar entender como elas estão reagindo às transformações do clima e aos eventos extremos no Pantanal. O registro do casal de tatu-bola significa que os esforços estão valendo a pena e precisam ser continuados", celebra o presidente do IHP, Ângelo Rabelo.
Um corredor ecológico entre três ecossistemas
O Pantanal ostenta a segunda maior densidade de mamíferos por território no planeta, com um índice técnico de 0,724. Nesse cenário, a Serra do Amolar — situada em uma zona estratégica de divisa entre Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e a fronteira com a Bolívia — ganha contornos ainda mais vitais. Em seus 80 quilômetros de extensão, a morraria cria um corredor ecológico único que conecta e mistura características da vegetação nativa do Cerrado, fragmentos da Mata Atlântica e florestas de transição amazônica. Essa riqueza de ambientes oferece refúgio e condições de termorregulação para espécies de grande porte, como a ariranha e a onça-pintada, cuja densidade populacional também é alvo de estudos em andamento pelo IHP.
Dados do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) apontam que a distribuição geográfica do Tolypeutes matacus no Brasil ainda é pouco conhecida e historicamente restrita à borda oeste do Pantanal, em uma extensão estimada de 14.974 km². Além do Paraguai, Bolívia e Argentina, o animal depende estritamente de áreas florestadas bem conservadas para sobreviver. A expansão da atividade agropecuária sem planejamento e a caça ilegal para consumo ou comércio doméstico são apontadas pelo ICMBio como as principais pressões que aceleram o declínio da espécie. O sucesso do monitoramento em Corumbá comprova que o investimento em conservação em terras privadas e o fortalecimento de redes de proteção são as ferramentas mais eficazes para garantir que o Pantanal continue a ser um porto seguro para a vida selvagem.
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