Mais impactado será o sistema Bauru-Caiuá, mas o Guarani também enfrentará perdas significativas.
(Foto: Divulgação/Sanesul)
As mudanças climáticas podem causar impactos ainda pouco discutidos, como a redução das águas subterrâneas armazenadas em aquíferos. Um estudo publicado por cientistas brasileiros no periódico Environ Monit Assess mostra que um dos situados em Mato Grosso do Sul poderá experimentar a alteração mais drástica entre as projetadas até o ano de 2100.
O sistema aquífero Bauru-Caiuá está em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás e São Paulo. Os pesquisadores estimam que ele sofrerá a redução mais crítica do volume de água recarregado anualmente, chegando a 27,94%. A recarga poderá diminuir até 666 milímetros por ano nas áreas mais afetadas.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores do Instituto de Geociências da USP (Universidade de São Paulo) e do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) a partir da projeção de dados de temperatura, precipitação e escoamento superficial das águas usando o modelo climatológico CMIP6 (Coupled Model Intercomparison Project Phase 6) e considerando um cenário pessimista e outro moderado. O ponto de partida da análise foi 2025, somando 75 anos de mudanças até o fim do século 21.
Outro citado que abrange Mato Grosso do Sul é o sistema aquífero Guarani, além das formações Furnas, Ponta Grossa e Serra Geral. As perdas neles serão substanciais, conforme o estudo. Somente o Guarani pode sofrer de −7,79 a −21,88% de impacto na recarga, sob os diferentes cenários analisados pelo estudo.
Principais aquíferos existentes no Brasil, considerando-se o seu potencial hídrico. Imagem: Reprodução/Atlas Geográfico Escolar do IBGE/Divulgado pela FapespSegundo o Mapa Hidrogeológico de Mato Grosso do Sul, publicado pelo SGB (Serviço Geológico do Brasil), são essas as características de cada formação do Estado:
- Bauru - Ocupa 12.516 km², ocorre predominantemente na porção nordeste do Estado, na divisa com Goiás e Minas Gerais;
- Caiuá - Ocupa 119.703 km², ocorrendo de forma contínua desde o centro-sul até a porção norte, com continuidade no Estado de São Paulo;
- Furnas - Em superfície, ocorre em faixa alongada de aproximadamente 4.383 km², estendendo-se desde o município de Aquidauana, ao sul, passando por partes dos municípios de Rio Negro, Rio Verde de Mato Grosso e Coxim, até o município de Sonora, no limite com o Estado de Mato Grosso. Estende-se a leste de forma subjacente ao aquiclude Ponta Grossa e ao aquífero Bauru;
- Ponta Grossa - Ocorre como faixa irregular e descontínua, com aproximadamente 1.850 km² na região centro-norte do Estado, em parte dos municípios de Pedro Gomes, Coxim, Rio Verde de Mato Grosso e Rio Negro;
- Serra Geral - Ocupa 50.691 km² na região centro-sul do Estado, restrita às calhas dos principais rios da região nordeste. Ocorre nas áreas mais povoadas do Estado, incluindo as regiões de Dourados e Campo Grande.
- Sistema Guarani (Botucatu) - Essa unidade aflora em uma ampla faixa da região central do Estado, com cerca de 20.783 km². A faixa tem 18 km de largura na região sudoeste, entre as cidades de Bela Vista e Antônio João, e gradualmente passa para cerca de 90 km no município de Alcinópolis. Áreas de ocorrências menores situam-se na região nordeste, entre as cidades de Chapadão do Sul e Cassilândia, na forma de corpos isolados.
Abastecimento
Os aquíferos são formações geológicas onde águas das chuvas infiltram e se acumulam lentamente no solo para abastecer poços, nascentes, rios e ecossistemas. No Brasil, estima-se que 112 milhões de pessoas (56% da população) sejam abastecidas total ou parcialmente por essa fonte.
Ricardo Hirata, primeiro autor do artigo, explicou à Agência Fapesp como esse processo é importante na época de estiagem. “Temos uma gigantesca reserva de água que é resiliente a variações de recarga. Mesmo em anos de estiagem, o aquífero continua fornecendo água, porque seu armazenamento é muito grande. Foi o que ocorreu na grande estiagem de 2014-2016. As cidades abastecidas por água superficial foram duas vezes mais atingidas pela crise hídrica do que aquelas abastecidas exclusivamente por água subterrânea”, afirma.
Soluções
O estudo propõe soluções como a recarga manejada de aquíferos (MAR, na sigla em inglês para managed aquifer recharge), que emprega técnicas para auxiliar a infiltração da água de chuva ou de águas de esgoto tratadas. A MAR inclui até mesmo a injeção direta no aquífero, como já ocorre em Madri, na Espanha.
Hirata detalha que a recarga manejada pode ser feita com estruturas simples, como bacias de infiltração ou pequenas barragens, até sistemas mais sofisticados de injeção direta no aquífero. “É possível captar a água de chuva ou mesmo o esgoto tratado e conduzir isso a sistemas de infiltração planejados. O solo funciona como um super-reator biogeoquímico, capaz de purificar essa água durante o trajeto até o aquífero”, finaliza.
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