Segunda-feira, 13 de Abril de 2026
Investigação

Policiais tratavam traficantes como chefes e liberaram caminhões sob propina

24 jan 2025 - 05h47   atualizado em 03/03/2026 às 09h31

Gesiane Sousa

Policiais tratavam traficantes como chefes e liberaram caminhões sob propina Dois advogados intermediavam negociações com os agentes de segurança pública. (Foto: Reprodução)

O escrivão da Polícia Civil, Gustavo Cristaldo de Arantes, não é o único policial que ajudava a quadrilha de tráfico de drogas liderada por Joesley da Rosa. Apesar de a segunda fase da Operação Snow não trazer nomes, já se sabe que agentes da Defurv (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Furtos e Roubos de Veículos) foram cooptados pela organização e receberam propina para apreenderem caminhões supostamente roubados e os devolverem a Joesley.

No caso dos caminhões, Joesley forjou roubo dos veículos através de outros dois denunciados, o advogado Antônio César Jesuino e Luiz Paulo da Silva Santos. Dois veículos - um Iveco Tetor 310, ano 2021/2022 e um VW 25.420 CTC, ano 2014 - estavam “apreendidos” em empresa de reciclagem como garantia de pagamento de dívida de agiota de Luiz.

Para reavê-los, Antônio César, a serviço de Joesley, registrou boletim de ocorrência contra Luiz Paulo alegando que este teria subtraído dois caminhões. Alegava que Luiz era da confiança de Joesley e lhe prestava serviços, e se aproveitou da situação para furtar os veículos. A história foi inventada para usar a força policial, através de pagamento de propina, para apreender os caminhões da empresa de reciclagem e devolvê-los a Joesley.

“Não passa despercebido, ainda, que a atuação de ANTONIO CESAR JESUINO não se limitou à falsa denunciação de crime, mas também envolveu o pagamento de propina a agentes públicos para que os caminhões apreendidos fossem devolvidos a JOESLEY DA ROSA”, revela a denúncia.

O valor acordado seria de R$ 30 mil entre o advogado e os policiais, mas Antônio César teria informado que os policiais passaram a pedir mais dinheiro para a devolução do caminhão. Primeiramente, seriam pagos R$ 5 mil antes da entrega dos veículos e os R$ 25 mil restantes depois. Entretanto, os policiais teriam passado a pedir um adicional de R$ 10 mil, totalizando o pagamento inicial em R$ 15 mil.

Tal pagamento entre o advogado e Joesley estava sendo mediado por Rodney Gonçalves Medina, também denunciado, e este, em determinado momento, depois do registro do boletim, “cobra o interlocutor identificado como “2 Dp (Policia)” a realizar a apreensão dos caminhões “Bora prender os caminhões?”

O policial civil não identificado responde a Rodney que na data em questão não poderia fazer a apreensão dos caminhões na empresa de reciclagem porque tinha um compromisso no Fórum de Campo Grande. “Não passa despercebido que o interlocutor, que é um policial civil, trata RODNEY GONÇALVES MEDINA nas mensagens como 'chefe', a indicar subserviência, como ainda que não era a primeira vez que conversavam.”

Na conversa, o policial diz a Rodney: “Chefe estou com compromisso no Fórum, como havia dito para Sr. Estamos verificando melhor abordagem para a ocorrência” e em 6 de dezembro de 2023 os caminhões, que estavam já no pátio da Defurv, são restituídos a Joesley e um dia depois, o líder da quadrilha fez “duas transferências de R$ 10.000,00 (dez mil reais) cada para ANTONIO CESAR JESUINO, totalizando o montante de R$ 20.000,00 (vinte mil reais), conforme medida cautelar de afastamento do sigilo bancário do líder da organização criminosa.”

Ao todo, Antônio César recebeu de integrantes da organização criminosa, R$ 50.290,38 entre outubro de 2023 e fevereiro de 2024. “Em resumo, os atos praticados por ANTONIO CESAR JESUINO, entre os quais a falsa denunciação de crime e o pagamento de propina a agentes públicos, este último de maneira reiterada e constante, são absolutamente incompatíveis com o exercício da advocacia e demonstram a participação dolosa dele na organização criminosa”, relata a denúncia.

Gustavo - Pedindo a perda do cargo de escrivão de polícia de Gustavo Cristaldo de Arantes, a denúncia do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) reforça que ele não atuava apenas com o grupo criminoso de Joesley e com recebimento de propina, o policial afastado ajudava outros bandidos repassando informações sigilosas de banco de dados das Forças de Segurança de Mato Grosso do Sul.

“Essa atuação em benefício de organizações criminosas não é fato isolado na carreira do policial civil GUSTAVO CRISTALDO DE ARANTES, que em março de 2024 foi alvo da Operação Juramento Quebrado, deflagrada pela DHPP (Delegacia Especializada de Homicídios e de Proteção à Pessoa), por estar vinculado a grupo de extermínio que atuava no bairro Moreninhas, em Campo Grande/MS”, enfatiza o documento.

O policial era lotado na delegacia de Ribas do Rio Pardo e na época foi determinada judicialmente a suspensão do exercício da função pública “com a consequente supressão de acesso a todos os sistemas de informação decorrentes da condição de policial, diante do fundado receio de sua utilização para a prática de infrações penais.”

Não é revelado quanto ele recebia pelos serviços, mas estes eram mediados pelo advogado Vlandon Xavier Avelino, que recebia os pagamentos feitos por Joesley em espécie. O defensor pedia informações sobre possíveis mandados em aberto contra seu cliente e o policial as repassava ao checar o Sigo (Sistema Integrado de Gestão Operacional), restrito às Forças de Segurança.

"Ao analisar Auditoria do Sistema Sigo para o dia 07/06/2023, para relacionar as pessoas que realizaram checagem ao nome de JOESLEY DA ROSA, o único servidor que solicitou checagem ao prontuário de JOESLEY foi GUSTAVO CRISTALDO DE ARANTES, (...), Escrivão de Polícia Judiciária que naquela data era lotado na Delegacia de Ribas do Rio Pardo – MS.”

Segundo o Gaeco “importante registrar que, nesses casos, a atuação de VLANDON XAVIER AVELINO não era voltada à defesa jurídica dos motoristas presos, que figuravam formalmente como seus “clientes”, mas sim para garantir os interesses de JOESLEY DA ROSA.”

Sobre os pagamentos por seus serviços, Vlandon recebia em espécie “para se preservar”. “Nessa atividade, quando possível, essa é a regra, justamente para se evitar o “follow the money”. E dinheiro vivo era uma coisa que não faltava ao líder da organização criminosa, JOESLEY DA ROSA”, reforça a denúncia, mostrando cofre recheado de notas na casa do líder da quadrilha.

Para o Gaeco, “a relação entre JOESLEY DA ROSA e VLANDON XAVIER AVELINO não é de cliente/advogado, mas sim de parceiros, comparsas do crime”, e que ELE “não só presta serviços jurídicos à organização criminosa, mas também a integra como membro.”

A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da Polícia Civil para ter retorno sobre o caso dos policiais envolvidos e aguarda resposta.

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