Sexta-feira, 11 de Setembro de 2026
Preocupante

De 37 países, Brasil é o 2º com maior proporção de jovens nem-nem

22 jul 2023 - 06h16   atualizado em 03/03/2026 às 09h28

Gesiane S. Lourenço

De 37 países, Brasil é o 2º com maior proporção de jovens nem-nem Especialista afirma que é necessário ouvi-los para construir soluções. (Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil)

Os jovens brasileiros estão em desalento, e é preciso ouvi-los para construir soluções. A análise é da pesquisadora Mônica Peregrino, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), especialista em juventude, mas também está na voz de lideranças juvenis que alertam para o desperdício de talentos, da força e da energia dos jovens.

Em mais uma reportagem da série especial sobre jovens nem-nem, a Agência Brasil ouviu especialistas e jovens que apontaram políticas necessárias para enfrentar a falta de oportunidades que atinge 36% dos jovens brasileiros, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

"Estudar e trabalhar é uma característica muito singular do jovem brasileiro, trabalhar é uma parte bastante importante da identidade dos jovens, ao contrário de outros países", pontua a professora da Unirio, Mônica Peregrino. No artigo Tendências na Transição Escola-Trabalho, ela apresenta a situação do jovem brasileiro na pesquisa das juventudes Ibero-Americanas. De acordo com o estudo, que ainda será publicado, o jovem brasileiro, principalmente os mais pobres, sofrem ausência de integração.

“Não estudar e não trabalhar é presente em todas as faixas socioeconômicas: se vê que é praticamente residual entre os grupos mais providos, mas três vezes maior nos grupos mais pobres. Não é uma questão de desejo pessoal, esses jovens têm uma dificuldade de engajamento institucional.” 

O estudo mostra ainda como se dá a transição entre a escola e o mercado de trabalho. “No estudo se vê claramente que a transição para os mais ricos é suave, já essa transposição dos jovens mais pobres, é muito mais abrupta e sem a mediação da possibilidade de estudar e trabalhar”, observa Mônica.

A pesquisadora lamenta, no entanto, que, entre os jovens mais pobres, esta situação de nem estudar, nem trabalhar os deixa à margem da sociedade. “As consequências para os mais pobres, as mulheres, e principalmente entre pretos e parte dos pardos, é que se faz uma transição para a vida adulta por fora dos engajamentos sociais regulares, como escola e trabalho, portanto por fora das políticas públicas, dos direitos de cidadania, que são questões de integração."

Na avaliação de Mônica Peregrino, as últimas reformas no país dificultaram a manutenção do jovem na escola e a entrada no mercado de trabalho. “A reforma do ensino médio, que estabelece um tempo maior de estudo dos jovens, está, em contrapartida, diminuindo significativamente, em nível dos estados, a escolarização regular noturna, isso é empurrar esses indivíduos que estavam tentando se integrar", adverte. "Já a reforma trabalhista precarizou um trabalho que já era bastante problemático e piorou a qualidade do trabalho para os jovens."

Diante disso, o que se vê é o desalento da juventude. "Existe um movimento em busca de integração, mas existe um desalento juvenil, um cansaço, uma falta de horizonte, estes últimos anos cobram seu preço, e os efeitos disso é que há muito mais dificuldades desses jovens para se integrarem às possibilidades plenas da sociedade", considera a professora.

Para desenvolver ações eficazes, segundo ela, é preciso ouvir os jovens. "Temos que ouvir os jovens e as suas necessidades específicas. Por exemplo, muitas mulheres jovens têm dificuldades de estudar porque não têm com quem deixar suas crianças, então precisamos de creches ou espaços que possam comportar os cuidados dos filhos dessas mulheres, seria um elemento importante.”

Ações de incentivo e estímulo ao aprendizado também podem ter bons resultados, opina Mônica Peregrino. “Ter uma política de reavivamento de ensino de jovens e adultos seria outro elemento importante, porque essas pessoas que estão à beira da sociedade entram nesses espaços pelas instituições que conseguem compor as beiradas. São necessárias políticas de suporte para a educação, para o trabalho e de suporte à composição entre estudo e trabalho, principalmente que garantam que o jovem vai poder estudar e trabalhar ao mesmo tempo."

Políticas de permanência

Na opinião da recém-eleita presidente na União Nacional dos Estudantes (UNE), Manuella Mirela, é preciso aproveitar o momento para avançar economicamente e assim, envolver os jovens.

“O Brasil atravessa a sua janela demográfica - momento em que a população economicamente ativa é a maior que todo o restante - e é neste momento que o país pode produzir, avançar economicamente, criar reservas para quando entrarmos no ônus demográfico previsto para a próxima década”, ressalta.

"Os chamados nem-nem representam uma grande preocupação e é, sobretudo, um grande desperdício da força e energia da juventude, tanto para o jovem, que se vê em meio ao trabalho precarizado para gerar renda e sem perspectivas, quanto para o desenvolvimento nacional para essa e as próximas gerações”, completa.

Para Manuella, o momento é de retomar os incentivos aos jovens. “Precisamos de agenda de retomada para o trabalho decente, para conter o avanço da 'uberização', programas para conter evasão escolar e universitária - as políticas de permanência - e um ensino médio com foco em formação técnica sem negligenciar as disciplinas tradicionais”, afirma.

Presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), Jade Beatriz ressalta a evasão do jovem da escola. “O ensino médio é um gargalo educacional, em que temos índices de evasão muito altos - 500 mil por ano. A ideia é que essa etapa aprimore o pensamento crítico, ofereça base para as graduações e prepare para o mundo do trabalho. Porém, não acontece. Muitos estudantes abandonam a escola para gerar renda para suas famílias, porém acabam caindo no trabalho precarizado, autônomo, sem direitos trabalhistas.”

Jade lamenta que a condição precária e, portanto, fora das estatísticas, levam esses jovens para essa situação. “Assim, se enquadram no nem-nem, quando, na verdade, estão vivendo o extremo da 'uberização' - e sem qualquer condição de continuar a formação, quanto mais seguir para a graduação.”

A solução, no entendimento dela, é o investimento na educação. “Pensando na etapa do ensino médio, o Brasil precisa de investimentos em escolas técnicas, para conter essa evasão e garantir que esse estudante possa migrar do trabalho precarizado para o decente, obter renda, ser força de trabalho para o desenvolvimento nacional e ainda seguir para o ensino superio

Leia Também

Funcionária fica ferida após queda de placas de vidro em comércio de Corumbá
Plantão

Funcionária fica ferida após queda de placas de vidro em comércio de Corumbá

Colisão entre bicicleta e van de autoescola deixa casal ferido em Corumbá
Plantão

Colisão entre bicicleta e van de autoescola deixa casal ferido em Corumbá

Mulher fica inconsciente após queda de 20 metros no Morro da Carlinda
Plantão

Mulher fica inconsciente após queda de 20 metros no Morro da Carlinda

Com resgates em Corumbá e Jardim, MS lidera ranking de trabalho escravo no Centro-Oeste
Fiscalização

Com resgates em Corumbá e Jardim, MS lidera ranking de trabalho escravo no Centro-Oeste

Aeronave resgata jovem com dores no peito em fazendo do Paiaguás
Plantão

Aeronave resgata jovem com dores no peito em fazendo do Paiaguás

Calor intenso e promessa de chuva marcam a quinta-feira em Corumbá e Ladário
Tempo

Calor intenso e promessa de chuva marcam a quinta-feira em Corumbá e Ladário

Dino determina reintegração de Andrei Rodrigues ao comando da PF
Justiça

Dino determina reintegração de Andrei Rodrigues ao comando da PF

36ª edição dos Jogos da Reme será realizada de 22 a 31 de outubro em Corumbá
Esporte

36ª edição dos Jogos da Reme será realizada de 22 a 31 de outubro em Corumbá

Mulher sofre luxação após desmaio em Ladário
Plantão

Mulher sofre luxação após desmaio em Ladário

Violenta colisão projeta motociclista sobre capô de carro no centro de Corumbá
Plantão

Violenta colisão projeta motociclista sobre capô de carro no centro de Corumbá

Mais Lidas

Mulher esfaqueia marido para sobreviver a espancamento em Corumbá
Polícia

Mulher esfaqueia marido para sobreviver a espancamento em Corumbá

“Irmãos Metralha” são presos após furtar até carne de sol em Ladário
Polícia

“Irmãos Metralha” são presos após furtar até carne de sol em Ladário

Corumbá pleiteia R$ 66 milhões no Governo Federal para requalificação urbana e inovação digital
Política

Corumbá pleiteia R$ 66 milhões no Governo Federal para requalificação urbana e inovação digital

Escritora infantil de Corumbá participa da Bienal do livro de São Paulo
Cultura

Escritora infantil de Corumbá participa da Bienal do livro de São Paulo