Sarlidei é pescadora profissional há 17 anos e mesmo com as dificuldades diz que não quer se aposentar.
(Arquivo pessoal)
Pescadora profissional há 17 anos, Sarlidei Pena Machado é uma mulher corajosa e destemida. Vive da pesca e de empreitadas durante a piracema. Já foi destaque da revista Cláudia e tem boa fama entre os colegas, sendo respeitada por todos. Como boa pescadora, tem grandes e hilárias histórias no leito do rio Paraguai. Seja enfrentando cobra, onça ou intempéries. Sarlidei cria sozinha os cinco filhos e diz com orgulho que todos são estudados. No dia internacional da mulher, ela enfatiza que a data é uma justa homenagem a todas as guerreiras que não se humilham e vão à luta pela sobrevivência.
Ela garante que não tem medo da profissão, mas lembra que o Pantanal é perigoso, não é coisa para aventureiro, “eu e um colega estávamos no rabicho com uma carga de piranha para entregar, então acampamos numa ilhota para fazer nosso acampamento. No local tem uma espécie de cambará e sabemos que é reduto de onça, mas pegávamos muitas piranhas. Estávamos descansando quando ouvimos um esturro de onça. Ela pulou em cima de uma capivara, mas não conseguiu segurar a presa e veio para cima de nós. Na hora é que você vê como vai reagir. Eu corri junto com meu parceiro, largando tudo para trás. Ela invadiu nosso acampamento, rasgou minha tenda de filó, e esturrava muito. Acabamos passando a noite à deriva, numa chalana. Não foi fácil porque o dia nunca que amanhecia. Essa onça deu um rugido tão forte que parecia filme de terror, mas é isso que o pescador tem que passar, pois faz parte da nossa profissão nesta vida. É muito gostoso, mas é sacrificado”.
Sarlidei enfrenta com orgulho as dificuldades da profissão. Foto: Arquivo PessoalEm entrevista ao Capital do Pantanal ela diz ser ‘filha do mato’ e não teme os perigos da noite, nem das águas, mas respeita, “as legislações da pesca estão afunilando e espremendo os pescadores. Como vamos tirar nosso sustento? Estão querendo nos transformar em bandidos”, questiona lembrando que apesar de tudo é muito sortuda porque nunca foi picada por abelha ou por cobra, “estávamos viajando com cem quilos de peixe para cima do rabicho, quando o vento forte e as ondas afundaram a nossa chalana. Eu tenho medo de temporal. Nós ficamos em cima dos camalotes, e seguramos o barco (uma chalana bem rasinha) que emborcou de vez. Não podia pensar no que vem de baixo e tentávamos nos controlar, mas graças a Deus um pescador que passava pelo local nos ajudou. Era um senhor negro de roupa marrom, e aqui se fala de um espírito que ronda os rios, ele nos ajudou a desvirar a chalana, e nós começamos a remar devagarinho até a Codrasa onde recebemos ajuda de amigos. Conseguimos sobreviver e fui feliz para casa, porque ganhamos o nosso pão de cada dia, pois não perdi minha carga de piranha”.
Essa mulher é filiada à Colônia de Pescadores e segue a vida crente na existência de Deus e dos bons espíritos, “temos nosso padroeiro São Pedro e a virgem Maria. Fui muito bem educada por meus pais e estamos sempre ajudando o próximo, procurando ajudar e fazer o bem sem olhar a quem. Hoje tenho o respeito dos colegas e dos parceiros. Pessoas de família. Já tive muitas mulheres como parceiras. As mulheres isqueiras que passam a noite dentro da água. Você tem que trazer a mercadoria porque somos autônomos, e correr dos riscos, porque hoje jacaré está atacando, não sei se é por causa da seca. Mas, nunca deixo de trabalhar. Enquanto tiver filhos para criar, eu vou trabalhar”. Ela diz que apesar das intempéries não quer se aposentar, mesmo nas dificuldades do período da Piracema, “nós trabalhamos com empreitada na Apa Baia Negra e assim vamos vivendo”.
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