Foto histórica de momento de lazer na Corumbá do século 20.
(Foto: Arquivo)
Regatas no rio Paraguai, circos itinerantes, espetáculos de teatro, bailes, carnaval, cururu, jogos de cartas e até brigas de galos. Entre o final do século 19 e as primeiras décadas do século 20, Corumbá abrigava um diversificado repertório de divertimentos. Mais do que simples passatempos, essas práticas estão sendo resgatadas por uma pesquisa do professor Leonardo do Couto, da UFMS do Pantanal, revelando como o lazer ajudou a moldar a identidade de uma cidade que buscava se afirmar como moderna e civilizada.
Após a Guerra do Paraguai, o município consolidou-se como um dos principais portos fluviais da América do Sul. A navegação internacional a vapor transformou a cidade em porta de entrada para companhias circenses internacionais e fitas de cinema anunciadas como novidades estrangeiras. No entanto, essas práticas globais não foram simplesmente copiadas: elas acabaram adaptadas à realidade do rio Paraguai e conviveram diretamente com as formas tradicionais de lazer.
A modernização de Corumbá não aconteceu de forma linear; o cinema não substituiu o teatro imediatamente, e o esporte planejado não eliminou o cururu ou os banhos no rio. Na verdade, os repertórios se misturaram em espetáculos híbridos de variedades que uniam números de circo e projeções no mesmo palco. Toda essa efervescência gerava debates intensos: a imprensa local frequentemente celebrava uma regata elegante como símbolo de progresso e, na mesma página, condenava o barulho e a moralidade das festas populares das ruas.
Divisão por classes, gênero e espaços
Os espaços de diversão desenhavam uma geografia urbana marcada por desigualdades. O centro da cidade e as margens do rio Paraguai concentravas as principais atrações, mas o acesso a elas dependia de filtros sociais claros. O preço dos ingressos, a exigência de vestimentas finas e as taxas de clubes elitizados criavam barreiras econômicas intransponíveis para as classes mais humildes. Enquanto as regatas e o teatro eram celebrados pela imprensa como símbolos de avanço, manifestações populares como o cururu e as festas de rua eram frequentemente rotuladas como "focos de desordem".
Essa divisão também se dava no recorte de gênero. Os homens aparecem nos jornais da época como os protagonistas absolutos do lazer público, atuando como competidores, dirigentes e frequentadores de espaços noturnos. Já as mulheres surgem quase sempre de forma restrita, ocupando as plateias, organizando ações beneficentes ou aparecendo em queixas públicas sobre os impactos destrutivos dos jogos na estrutura familiar. Segundo o pesquisador, o público não era passivo e frequentemente vaiava, protestava e subvertia as regras impostas pelas autoridades.
Educação do corpo e reflexos no presente
A investigação conduzida pela UFMS desde 2024 — que conta com a participação ativa de estudantes de graduação na análise de jornais antigos — reforça que os divertimentos funcionavam como ferramentas pedagógicas informais. Praticar um esporte ou frequentar um espetáculo ensinava noções de disciplina, autocontrole, sincronia e as maneiras consideradas corretas de portar-se socialmente.
Conhecer essas dinâmicas do passado é fundamental para compreender as tensões da Corumbá contemporânea. Os debates atuais sobre quem tem o direito de ocupar as ruas, quais manifestações culturais recebem apoio financeiro e como o patrimônio histórico — como o Casario do Porto — é preservado encontram suas raízes diretas nessas disputas da virada do século. O projeto já gerou artigos científicos e roteiros audiovisuais, devolvendo à comunidade pantaneira um olhar humanizado sobre a sua própria história.
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