Imagem da entrega de doces registrada em documentário.
(Foto: Bela Oyá Pantanal)
Mais do que uma data no calendário religioso, o Dia de São Cosme e Damião, celebrado neste domingo, 27 de setembro, representa uma das manifestações de cultura popular mais vivas, plurais e pulsantes de Corumbá. Rompendo as barreiras dos templos, a celebração transforma o município em um imenso território de partilha, onde milhares de crianças e adolescentes caminham quilômetros em uma alegre "caçada" aos tradicionais saquinhos de docess.
Nas calçadas, a data ganha contornos de patrimônio afetivo. É o momento em que a promessa individual se converte em festa comunitária. Tabuleiros e mesas são estendidos na frente das casas, repletos de pacotinhos recheados com balas, pirulitos, chocolates e bolos caseiros, distribuídos gratuitamente para qualquer pequeno que estenda as mãos.
O elo sagrado entre o altar e o terreiro
A força cultural da festividade em Corumbá reside, fundamentalmente, na sua rica bagagem de sincretismo religioso. Enquanto a Igreja Católica celebra os santos gêmeos — médicos conhecidos por exercer a caridade e a cura sem cobrar nada em troca — no dia 26 de setembro, as religiões de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé, consagram o dia 27 às homenagens aos Erês, as divindades infantis que protegem a infância e simbolizam a alegria.
Em vez de criar divisões, essa dualidade histórica soma forças na Cidade Branca. Devotos das mais diversas correntes espirituais unem-se na mesma corrente de solidariedade. Nos centros e terreiros locais, além dos doces, é comum a preparação do tradicional caruru ou a distribuição de sopas, ofertados aos curumins e pequenos pantaneiros em um ritual de renovação de esperança, axé e luz.
Uma herança de afeto que atravessa gerações
A manutenção dessa tradição festiva se apoia no ambiente familiar. O costume de preparar os saquinhos de doces costuma ser repassado de avós para filhos e netos, funcionando como um testemunho vivo de gratidão por graças alcançadas, especialmente ligadas à saúde das crianças. Dias antes da festa, salas de estar viram verdadeiras linhas de montagem voluntárias, onde parentes e vizinhos se encontram para amarrar as fitas das sacolinhas.
Para além do aspecto místico, a data dita a identidade urbana da região neste domingo. Modifica o fluxo das ruas, exige condução defensiva extrema dos motoristas e convoca os moradores a ocuparem o espaço público com gentileza. Em uma época marcada por interações cada vez mais virtuais, ver a infância corumbaense ocupar massivamente as ruas de terra e asfalto, unida pelo sabor singelo de um bombom, prova que, no coração do Pantanal, a tradição ainda é o doce mais esperado do ano.
Receba as notícias no seu Whatsapp. Clique aqui para seguir o Canal da Capital do Pantanal
Leia Também
Festa de Cosme e Damião mobiliza reforço na segurança do trânsito em Corumbá
Filme gravado em Corumbá é o único de MS no circuito nacional de cinema do Sesc
Mocidade da Nova Corumbá apresenta samba enredo 2027 nesta sexta-feira, dia 25
UFMS recebe três dias de apresentações culturais em Corumbá
Livro reconta a história de Corumbá sob a perspectiva de minorias e povos tradicionais
Marcha para Jesus reúne multidão e encerra comemorações dos 248 anos de Corumbá
Marcha para Jesus acontece hoje em Corumbá com show da Banda FHOP
Praça Generoso Ponce lota com show do Bom Gosto no aniversário de Corumbá
Prefeito destaca história de Corumbá e projeta novas entregas ainda neste ano