Terça-feira, 26 de Maio de 2026
Entrelinhas

Da Lei do 44 à Inteligência Artificial

26 mai 2026 - 10h00   atualizado às 10h11

Coronel Alírio Villasanti

Da Lei do 44 à Inteligência Artificial Comparação transitória da lei do 44 à Inteligência Artificial. (Foto: Imagem gerada por IA.)

A expressão “Justiça de Mato Grosso: 44” ficou historicamente conhecida por ser entoada nos bingos das quermesses das igrejas, sobretudo no interior. A referência dizia respeito ao calibre de um revólver amplamente utilizado à época, quando Mato Grosso ainda integrava o então Estado uno. Inserida em um contexto cultural fortemente ligado à autodefesa, a posse e o porte de armas eram socialmente aceitos, especialmente em propriedades rurais distantes e de grande extensão territorial. A justificativa recorrente era a necessidade de proteção contra ataques de animais silvestres e eventuais ameaças à integridade física dos moradores.

Era igualmente comum, durante as festividades de passagem de ano, a prática indiscriminada de disparos de arma de fogo para o alto, comportamento que colocava em risco a integridade física da população e, de modo especial, dos policiais militares que realizavam o policiamento ostensivo nas ruas. Diante da ausência de amparo legal adequado para intervir, restava muitas vezes aos agentes de segurança o recolhimento aos quartéis, como medida de autoproteção.

No campo do trânsito, a realidade não era diferente. A legislação vigente à época não previa o uso obrigatório do cinto de segurança por motoristas e passageiros, apesar de se tratar de um dos equipamentos de proteção individual que mais salva vidas em todo o mundo.

Esses exemplos ilustram como profundas mudanças comportamentais decorreram da evolução legislativa, a qual passou a refletir uma nova forma de agir: mais preventiva, responsável, respeitosa e socialmente aceitável. Tais transformações, embora inicialmente impactantes, revelaram-se fundamentais para a melhoria do convívio social e da proteção à vida.

Ao transpor essa reflexão para o campo específico da segurança pública, destacam-se dois exemplos que hoje pautam o debate nacional e regional. O primeiro é a série documental Territórios – Sob o Domínio do Crime, lançada pela Globoplay, que aborda a expansão das facções criminosas e suas graves implicações na vida social brasileira. O segundo diz respeito à realidade local: o Índice de Progresso Social aponta o município de Japorã, localizado na fronteira com o Paraguai, entre as 20 cidades com pior qualidade de vida do Brasil, considerando indicadores como saúde, educação, saneamento, moradia, inclusão social, acesso a oportunidades e segurança pública.

Ambos os exemplos evidenciam a preocupação crescente, notória e praticamente unânime com a segurança pública. Nesse cenário, torna-se imprescindível compreender o cidadão e exercitar permanentemente o diálogo — principal ferramenta da administração pública — como caminho essencial para a construção de soluções eficazes e legítimas.

É necessário adotar um olhar inovador, capaz de atender às reais necessidades da população. Investir em maior conectividade, por meio de ferramentas como câmeras de monitoramento, drones, inteligência artificial e sistemas de reconhecimento facial, amplia a capacidade de interação do Estado com o cidadão, promove maior transparência, melhora o desempenho institucional e fortalece uma segurança pública verdadeiramente cidadã.

A modernização, por si só, confere maior legitimidade à atuação estatal e permite identificar com celeridade tendências, riscos e prioridades estratégicas. Não se trata apenas da análise fria das estatísticas criminais, mas da percepção concreta da insegurança, muitas vezes refletida no medo cotidiano que impacta de forma devastadora a qualidade de vida da população.

Por fim, é imprescindível ter grandeza de propósitos para enfrentar o debate sobre segurança pública de forma madura, sem corporativismos, preconceitos ou interesses eleitoreiros. Esse debate deve envolver as três esferas de poder e abranger temas estruturantes, como a autonomia administrativa e financeira e o empoderamento como polícia administrativa  das corporações estaduais, a inclusão de policiais temporários e a implementação do ciclo completo de polícia. Tudo isso deve ser discutido com prioridade pelos técnicos do setor, pela comunidade acadêmica e pela sociedade organizada, visando a uma prestação de serviços de segurança pública mais eficiente, humana e alinhada às demandas sociais contemporâneas.

Receba a coluna Entrelinhas no seu Whatsapp. Clique aqui para seguir o Canal do Capital do Pantanal

Leia Também

Batalhão Rodoviário: Vidas salvas e coragem contra o crime
Entrelinhas

Batalhão Rodoviário: Vidas salvas e coragem contra o crime

Grito da sociedade por segurança
Entrelinhas

Grito da sociedade por segurança

Trânsito seguro com mais fluidez e mobilidade ativa
Entrelinhas

Trânsito seguro com mais fluidez e mobilidade ativa

Heróis que protegem vidas
Entrelinhas

Heróis que protegem vidas

O preconceito contra os policiais militares
Entrelinhas

O preconceito contra os policiais militares

O peso da segurança pública nas Eleições 2026
Entrelinhas

O peso da segurança pública nas Eleições 2026

Crime organizado ou terrorismo global?
Entrelinhas

Crime organizado ou terrorismo global?

Interferência ou cooperação na segurança pública?
Entrelinhas

Interferência ou cooperação na segurança pública?

MS e o protagonismo na proteção ambiental
Entrelinhas

MS e o protagonismo na proteção ambiental

Fundação Bombeiros do Pantanal
Entrelinhas

Fundação Bombeiros do Pantanal

Mais Lidas

Disputa por comando gera tentativa de demolição na Liga Árabe de Corumbá
Polícia

Disputa por comando gera tentativa de demolição na Liga Árabe de Corumbá

Semana dos Museus destaca memória e identidade do antigo Sarobá
cultura

Semana dos Museus destaca memória e identidade do antigo Sarobá

Colisão provoca capotamento e deixa dois feridos  no Centro de Corumbá
Plantão

Colisão provoca capotamento e deixa dois feridos no Centro de Corumbá

Mulher fica ferida após briga entre vizinhas em Corumbá
plantão

Mulher fica ferida após briga entre vizinhas em Corumbá