Computador e materiais digitais apreendidos na operação.
(Foto: Divulgação)
Uma adolescente de 14 anos utilizou o perfil de “melhor amiga” virtual para ganhar a confiança de Lívia, a jovem de 13 anos de Naviraí que tirou a própria vida em julho. De acordo com as investigações da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, a menor investigada colhia confidências e segredos da vítima e os repassava para um grupo articulado na internet. As informações eram posteriormente utilizadas pelo grupo para chantagear, manipular e aumentar o controle psicológico sobre a menina.
As duas nunca se conheceram pessoalmente. O contato inicial ocorreu em redes sociais abertas, como TikTok e Instagram, antes de a vítima ser atraída para servidores fechados na plataforma Discord. A adolescente apontada como aliciadora foi capturada na última terça-feira (15) durante a deflagração da segunda fase da Operação Lívia, que cumpriu mandados em cinco estados e no Distrito Federal, apreendendo seis jovens. Conforme a delegada Anne Karine Sanches Trevizan, titular da DEPCA, a investigada mantinha um relacionamento virtual com um dos líderes do grupo — apreendido em Macaé (RJ) — e foi uma das integrantes que demonstrou maior agressividade contra Lívia durante a transmissão ao vivo que resultou na morte da menor.
A dinâmica do grupo é classificada pelos investigadores como "escravidão digital". Os membros dividiam tarefas utilizando perfis falsos para simular idades e gêneros semelhantes aos das vítimas. Após criarem vínculos e obterem dados sobre a rotina, a escola e a família dos alvos, eles passavam a exigir o cumprimento de ordens violentas sob a ameaça de expor as informações coletadas. Dentro dessas comunidades, chamadas de “panela”, as transmissões de violência eram tratadas como “eventos” e serviam para medir o prestígio e o engajamento dos criminosos na rede. No caso de Lívia, a polícia detalha que a pressão psicológica mais intensa durou cerca de duas horas e foi acompanhada em tempo real pelos suspeitos.
Todos os alvos apreendidos na operação têm menos de 18 anos e responderão por atos infracionais análogos aos crimes de homicídio e organização criminosa. A polícia identificou outras potenciais vítimas da rede, incluindo uma adolescente de 17 anos instigada a se ferir na mesma live e uma criança de apenas 7 anos. Devido à gravidade do caso, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou a suspensão temporária de transmissões ao vivo e compartilhamento de vídeos do Discord no Brasil. Em nota, a plataforma informou que baniu o servidor antes do ocorrido e reforçou que mantém equipes dedicadas a remover conteúdos que violam suas diretrizes de segurança.
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