Participantes da COP15 discutem estratégias de conservação e manejo do fogo no Pantanal.
(Foto: Ligia Baraldi/Wetlands International Brazil)
A combinação entre ciência moderna e conhecimento tradicional se mostra essencial para enfrentar os incêndios no Pantanal. Essa foi a mensagem central de um painel realizado nesta terça-feira (25), durante a COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS), em Campo Grande. O evento acontece de 23 a 29 de março na capital sul-mato-grossense.
Com o tema “Monitoramento integrado e gestão do fogo para espécies migratórias e conservação de áreas úmidas no sistema Paraguai–Paraná”, o painel reuniu especialistas, representantes da sociedade civil e defensores do bioma, que compartilharam experiências de prevenção, manejo e combate aos incêndios, cada vez mais frequentes e intensos na região.
Iniciativas como o Sifau (Sistema Integrado de Fogo em Áreas Úmidas), conduzidas pela Wetlands International Brasil e pela Mupan – Mulheres em Ação no Pantanal, foram destacadas como exemplos de sucesso. A diretora-geral da Mupan, Áurea Garcia, explicou que “São informações coletadas via satélite, com fluxo contínuo de dados, que permitem análise de cenários, emissão de alertas aos proprietários e monitoramento no pós-fogo. É uma ferramenta que hoje também é utilizada pelo Governo de Mato Grosso do Sul para notificações e orientação preventiva em áreas de risco, com previsibilidade de até seis dias”.
O painel também apresentou o Sistema Pantera, operado pelo Instituto Homem Pantaneiro (IHP) em Corumbá. Segundo o presidente Angelo Rabelo, o sistema utiliza inteligência artificial e cinco câmeras para monitorar mais de 1 milhão de hectares, incluindo áreas próximas à fronteira com a Bolívia. A tecnologia identifica sinais de fumaça em tempo real e, junto ao uso de drones, fortalece a atuação das brigadas locais, como a Brigada Alto Pantanal.
A bióloga Daniella França, da SOS Pantanal, reforçou que a integração do manejo do fogo com o engajamento comunitário é fundamental, lembrando que as soluções mais eficazes exigem participação direta das populações locais.
Planejamento e tradições
Além das tecnologias, o enfrentamento do fogo depende de planejamento a longo prazo. O cacique Eudes Abicho, da Aldeia Tomázia do Território Indígena Kadiwéu, compartilhou experiências após os incêndios de 2020. “Estamos realizando queimas com base em estudos de mapeamento dentro do território. Também trabalhamos a prevenção com a comunidade e nas escolas. Seguimos utilizando práticas dos nossos antepassados, como o uso de cavalos, mas agora com mais planejamento, não esperamos mais a seca. Estamos antecipando ações e criando áreas de escape para animais, aves e também para a comunidade, que sofreu muito com problemas respiratórios em 2020. Todas essas tecnologias, como drones, o Projeto Pantera e o Sifau, trouxeram mais segurança para o nosso trabalho no território. Elas ajudam a chegar mais rápido e a combater o fogo com mais eficiência”.
O painel evidenciou que o desafio vai além de conter incêndios: é preciso conciliar conservação ambiental, produção sustentável e qualidade de vida para os moradores do bioma.
Brigadas indígenas no combate ao fogo
Na Serra do Amolar, a Brigada Uberaba Guató atua com três esquadrões capacitados para prevenção e combate inicial a incêndios. A equipe foi estruturada em setembro de 2024 com apoio do IHP, FUNAI, Prevfogo, Ibama e ADM Cares.
O Território Indígena Guató, localizado no extremo norte de Mato Grosso do Sul, próximo à Bolívia e divisa com Mato Grosso, é de difícil acesso. A capacitação da comunidade beneficia diretamente mais de 100 famílias e representa um reforço estratégico para proteger tanto o meio ambiente quanto os moradores locais. O deslocamento até a região pode levar mais de oito horas de barco pelo rio Paraguai ou ser feito por via aérea.*Com informações da assessoria de comunicação do Instituto Homem Pantaneiro (IHP).
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