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Secretária laranja pagava propinas, diz PF

31 maio 2016 - 16h16Redação
Relatório da segunda fase da Operação Lama Asfáltica da Polícia Federal, que apura o desvio de recursos em obras públicas executadas em Mato Grosso do Sul, aponta que enquanto o empresário João Amorim comandava o esquema de fraudes, ele tinha a retaguarda administrativa de Elza Araújo dos Santos Amaral, que era secretária de uma de suas empresas, a Proteco. A reportagem tentou contato com o advogado de João Amorim e de Elza Amaral, mas ele disse que estava em uma reunião e não poderia falar sobre o caso. Segundo a Polícia Federal, ela era o braço direito do empreiteiro. A pessoa que pagava as propinas e que aceitou ser testa de ferro em vários negócios. Os investigadores dizem que, no papel, Elza Amaral é milionária. Na prática, o dinheiro que passava pelas contas bancárias dela sempre ia parar, de um jeito ou de outro, no bolso do patrão. Em 2007 ela virou sócia da Proteco Engenharia, com 2% das cotas. Também é dona da Kamerof, parte da holding holandesa Arklyeius. A Kamerof é sócia da Intel Informática, do empresário João Baird, que é apontado como sócio de João Amorim em um jato executivo apreendido pela Polícia Federal. De acordo com o relatório da investigação, logo no primeiro ano e mesmo sem ter tido nenhuma atividade, a Kamerof deu lucro de R$ 800 mil a Elza. Mas ela não ficou com o dinheiro. Emprestou R$ 770 mil a Ana Paula Amorim, filha do dono da Proteco. Em 2010, um novo empréstimo, agora de mais de R$ 3 milhões. Desta vez para João Amorim. Em 2011, Elza emprestou mais R$ 6,8 milhões ao chefe. Os responsáveis pela Lama Asfáltica acreditam que a secretária era laranja de Amorim nas empresas. Os investigadores também encontraram na casa dela o contrato de um empréstimo de R$ 600 mil para João Baird, dono da Itel, e comprovantes de depósito mostram que o dinheiro saiu, antes, de um conta do empreiteiro João Amorim. De acordo com o relatório, essa é outra prova da sociedade oculta entre Amorim e Baird. Em 2014, Elza comprou um apartamento em um prédio de luxo em Campo Grande, por R$ 1,5 milhão. A secretária negociou com um empreiteiro, que antes tinha comprado o imóvel do secretário estadual de obras e ex-deputado federal, Edson Giroto, em 2012. O imóvel, que está vazio, segue em nome de Giroto, mesmo quatro anos depois. A Polícia Federal acredita que as duas vendas são falsas, e serviriam para esconder repasses de dinheiro de Amorim para o ex-secretário estadual de Obras.  A reportagem entrou em contato com o advogado de Edson Giroto, mas ele informou que como o caso está em segredo de Justiça não vai se pronunciar. A secretária do empreiteiro também era a responsável por entregar a propina para servidores públicos que ajudavam no esquema. Ela chegou a ficar conhecida como a mulher do cafezinho. Segundo a investigação, café era a senha para a propina. O jornalismo da TV Morena mostrou, no ano passado, escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, em que ela convida um fiscal terceirizado da Agesul, Marcos Puga, para “tomar um cafezinho”, na Proteco. Logo após sair da sede da Proteco, o fiscal foi parado por agentes federais, que encontram R$ 20 mil em dinheiro em sua caminhonete. O flagrante foi registrado e incorporado como prova na investigação. Marcos Puga não chegou a ser preso. No depoimento que deu aos policiais federais, a secretária alegou que cafezinho era só uma gentileza oferecida em visitas de amigos à empreiteira. Sobre as empresa das quais é sócia, ela não soube explicar a atividade da Kamerof, nem como conseguiu o dinheiro da compra do apartamento. Elza Amaral segue em prisão domiciliar. Investigação As investigações sobre o suposto esquema de corrupção tiveram início em 2013. Na primeira fase da apuração, foi verificada a existência de um grupo que, por meio de empresas em nome próprio e de terceiros, superfaturaram obras contratadas com a administração pública, mediante corrupção de servidores públicos e fraudes a licitações, ocasionando desvios de recursos públicos. Em análise a material apreendido na primeira fase da operação, a CGU e a Receita Federal verificaram indícios de lavagem de dinheiro, inclusive decorrentes de desvio de recursos públicos federais e provenientes de corrupção passiva, com a utilização de mecanismos para ocultação de tais valores, como aquisição de bens em nome de terceiros e saques em espécie.   Primeira fase Em fevereiro, o Ministério Público do Estado (MP-MS), denunciou 40 pessoas por envolvimento em corrupção em obras públicas de Mato Grosso do Sul. Esses denunciados tinham sido investigados pela PF. Na época, R$ 84 milhões em bens foram bloqueados. A operação foi deflagrada em 9 de julho de 2015, cumprindo 19 mandados de busca e apreensão em residências de investigados e em empresas que tinham contratos com o poder público. A PF e a Receita Federal também foram à Secretaria de Estado de Infraestrutura (Seinfra). De acordo com o secretário estadual de Governo e Gestão Estratégica, Eduardo Riedel, quatro servidores foram afastados na época. Na lista de obras investigadas na primeira fase estão o Aquário do Pantanal e as rodovias MS-171, MS-228 e MS-187. Todas foram executadas na administração de André Puccinelli (PMDB). Na época, a assessoria do ex-governador informou que "todas as contratações seguiram rigorosamente a legislação vigente e aplicável ao caso" e "os pagamentos efetuados foram feitos após verificação dos fiscais de cada uma das obras.

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