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O caos e abandono de pacientes do SUS em Corumbá

03 outubro 2018 - 08h09Sylma Lima
Pacientes com patologias diferentes  e alguns casos graves aguardam leito  no hospital. Foto: Sylma Lima

O descaso com o ser humano é uma realidade na saúde publica brasileira. Prontos socorros lotados de pacientes, ‘internados’ há dias a espera de uma vaga no hospital que por sua vez alega falta de leitos. É assim que está a situação da saúde pública em Corumbá, que ainda atende bolivianos. O estado não cumpre seu papel  oferecendo estrutura física  para o prédio antigo e decadente, médico, aparelhamento e segurança para o paciente que vê ferida a sua dignidade.

Quem tem condições paga plano de saúde e assim , deixa de brigar por direitos constitucionais da saúde pública de qualidade, como preconiza a portaria Nº 1.820, de 13 de Agosto de  2009. § 5º Quando houver alguma dificuldade temporária para atender as pessoas é da responsabilidade da direção e da equipe do serviço, acolher, dar informações claras e encaminhá-las sem discriminação e privilégios. Diz o Art. 3º  que toda pessoa tem direito ao tratamento adequado e no tempo certo para resolver o seu problema de saúde. Entretanto, na noite desta terça-feira, nos deparamos com as salas emergenciais do Pronto Socorro  lotadas de pacientes a espera de leito para internação, e não são casos simples.

Por exemplo cito o do senhor Luis Teixeira de 53 anos, que há oito dias tem sofrido uma maratona infernal entre idas e vindas ao hospital a procura de um leito. Com feridas graves que estão se alastrando pelo corpo, ele aguarda uma vaga junto a pacientes de diversas patologias, ‘tudo junto e misturado’. A reclamação é geral, porque não havia luz no banheiro, papel higiênico e nem cobertas. Na verdade este paciente nos ligou pedindo comida pois estava com fome, apesar do secretário de saúde municipal Rogerio Leite afirmar que eles tem alimentação, que foi adquiridos cobertores e poltronas para soro, "estava muito pior", diz o secretario. Se a situação era pior é problema da própria gestão pois estão no cargo desde a ultima eleição.  O fato é que seres humanos são jogados em macas quebradas e enferrujadas e a promessa de um novo hospital  ou reforma e ampliação do Pronto Socorro continua sendo um sonho distante da realidade  presenciada pela reportagem do Capital do Pantanal.

Maratona infernal na vida do senhor Luiz na cama a direita. Com os pés feridos não consegue andar e não abe o que tem apesar de várias idas ao hospital. Foto: Sylma Lima

Na revista Veja, datada de 16 de Agosto de 2017, foi retratado o estado da saúde publica no pais após o ministro da saúde dizer claramente que , “Vamos parar de fingir que pagamos os médicos e os médicos têm que parar de fingir que trabalham”. Portanto, trata-se aqui de uma frase de efeito que desvia a atenção sobre a precariedade da saúde pública, onde falta tudo ou quase tudo e ocorre com frequência a designação aos médicos da representação não autorizada do Criador nas “escolhas de Sofia ”  (filme)– as mesmas escolhas entre os náufragos daquele que ocupará o último lugar disponível no escaler da vida.

As mortes evitáveis e as sequelas irreversíveis de milhares de brasileiros, por falta de condições de trabalho ao médico, têm sido escondidas com a cumplicidade do silêncio ou de polêmicas impertinentes, que impedem a nítida visão da incompetência administrativa do Sistema Único de Saúde (SUS).

Maquiavel classificou os homens em três tipos: aqueles que conseguem compreender por si só; os que só conseguem entender os que os outros compreenderam; e aqueles que não conseguem compreender por si só e não conseguem entender o que os outros compreenderam

Porém, ao finalizar esse pequeno texto resumo com um poema de Miguel Torga, poeta e escritor português:

“Ninguém tem qualquer interesse em saber isto; mas se eu tivesse de me confessar socialmente, a síntese do meu desespero era esta: que cheguei, em matéria de descrença no homem, à saturação. E, contudo, este perdido, este condenado, merece-me uma ternura tal, que não há tolice que faça, asneira que invente, mentira que diga que me deixe indiferente. Tenho por força de olhar, reparar, ouvir, e comentar com toda a paixão de que sou capaz”

Há dias no hospital paciente não sabe o que tem nos pés, mas está subindo para todo o corpo. Foto: Sylma Lima

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