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Heróis do Pantanal contra o fogo: o trabalho das brigadas voluntárias

A presença de brigadas pelo território permite pronta resposta, monitoramento constante e ações preventivas

13 outubro 2022 - 09h27Redação Ecoa

O fogo originou uma das maiores tragédias socioambientais já vistas no Pantanal. Causados pelo homem, os incêndios que atingiram a região nos últimos anos trouxeram impactos que perduram até hoje.  

Este ano, o número de focos no Pantanal foi relativamente menor em comparação aos anos anteriores. Apesar das planícies estarem secas de uma forma geral, o clima foi determinante para a redução no número de focos, com a vinda de chuvas atípicas principalmente no mês de agosto.  

As brigadas voluntárias distribuídas pelo território também tiveram papel fundamental na redução deste número. Algumas delas atuam justamente em regiões estratégicas para conservação. 

A formação desses grupos foi possível por meio de um trabalho conjunto que envolve o Prevfogo/Ibama, responsável pelo treinamento, e organizações da sociedade civil, como a própria Ecoa, o WWF Brasil e a SOS Pantanal

Ao fim deste ano, serão 23 brigadas formadas com participação direta da Ecoa, que foi pioneira na promoção dessa estratégia no território pantaneiro, totalizando mais de 50 brigadas em comunidades e fazendas espalhadas pelo Pantanal. Com o sucesso da estratégia, ela passou a ser adotada como política da organização. 

Em diversos relatos recebidos pela Ecoa nos últimos meses, os brigadistas se mostraram fundamentais para a contenção de incêndios quando os focos ainda eram pequenos. Pela proximidade e conhecimento da região, foram os primeiros a identificar os focos, alertaram outros órgãos de combate e agiram antes que o fogo se alastrasse.  

Além do combate direto às chamas, os heróis do Pantanal contra o fogo também agem de forma preventiva. Ao promover educação ambiental no local onde vivem, são agentes de transformação em suas comunidades.  

O fortalecimento e mobilização constante dessas brigadas são fundamentais para impedir o cenário desastroso dos incêndios. Recentemente, nove brigadas pantaneiras receberam treinamento e equipamentos de combate e prevenção ao fogo. Os materiais foram adquiridos a partir de articulação entre a Ecoa e o Fundo Socioambiental Casa.  

André Luiz Siqueira, diretor presidente da Ecoa e coordenador de 23 brigadas, explica que a formação é realizada com grupos como indígenas, ribeirinhos, agricultores familiares e assentados rurais. “Essas pessoas promovem a mudança do uso do fogo em seus territórios. Além disso, também defendem as regiões onde vivem porque dependem delas para sobreviver”. 

Agora mais um passo à frente. Recentemente, teve início a discussão da proposta de criação da Rede de Brigadas Voluntárias de Combate a Incêndios no Pantanal. Nesse processo será fundamental a cooperação com instituições governamentais e não governamentais 

“A ideia é reunir todo esse pessoal, as lideranças das brigadas e os parceiros que seguem a mesma agenda, e fazer um mapeamento aprofundado do trabalho das brigadas assim como entender outros caminhos de inovação no combate e prevenção de incêndios florestais no Pantanal”, explica André. 

Muitos dos pantaneiros e pantaneiras que se voluntariaram para atuar nas brigadas presenciaram o terror das chamas e foram diretamente afetados por eles. Além de fundamental para a conservação do Pantanal, as brigadas também são uma maneira dessas comunidades protegerem suas casas e suas vidas.  

Pronta resposta  

No fim de setembro, focos de incêndios atingiram a região de Porto Amolar, a montante de Corumbá (MS). A Ecoa possui uma base na região, sendo que em anos anteriores o local serviu de apoio para brigadistas e bombeiros que precisaram atuar para conter o fogo.  

As chamas se iniciaram à noite, em um local de difícil acesso. A fumaça e cheiro de queimado foi alerta para Reinaldo Nogales, chefe da brigada do local. Ainda à noite, ele identificou a região onde o fogo estava se espalhando. 

“Logo que eu vi o fogo à noite, eu avisei aos bombeiros, aí o combate foi um ajudando o outro. É muito importante ter brigadista nas comunidades para monitorar e fazer o primeiro combate, até chegar reforço”, relata Reinaldo. 

Os brigadistas da comunidade participaram do combate juntamente com o Corpo de Bombeiros. “Aqui a comunidade é uma pertinho da outra, aí um avisa o outro. E é isso, sempre a comunicação. Um comunicando o outro”. 

Nesta ação conjunta, bombeiros e brigadistas conseguiram apagar o fogo e impediram que a situação tomasse proporções incontroláveis. Este é um exemplo claro de como a pronta ação das brigadas pode impedir desastres.  

A brigada desta região foi formada no ano de 2006. Nos últimos anos, atuou por diversas vezes no combate aos incêndios no Parque Nacional do Pantanal e, em 2020, foi notícia inclusive em sites internacionais. 

Monitoramento constante 

Os moradores da Área de Proteção Ambiental Baía Negra, em Ladário (MS), passaram por um verdadeiro pesadelo em 2020. Segundo o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (LASA/UFRJ), quase 60% da área total da APA foi devastada por incêndios neste ano.  

Com o fogo, as 38 famílias que vivem na Unidade de Conservação sofreram diversos impactos, principalmente na geração de renda. No local, o sustento das famílias é proveniente principalmente do extrativismo sustentável, pesca e turismo de base comunitária.   

Entretanto, o cenário foi diferente nos anos seguintes. Em 2021, não houve incêndios na APA. Já neste ano, três focos foram controlados ainda no início das chamas.  

Na Aldea Brejão a comunidade possui uma forte relação com a equipe de Brigadistas. Foto: Arquivo/Ecoa

A mudança na ocorrência de incêndios pode ser explicada com a formação de dois esquadrões de brigadistas dentro da APA. O primeiro foi formado em 2019 por iniciativa da Ecoa no âmbito do projeto ECCOS, apoiado pela União Europeia. A partir de 2020, soma-se à essa parceria a SOS Pantanal, responsável pela formação do segundo esquadrão foi realizado em conjunto com a SOS Pantanal, que também doou equipamentos para a brigada local.  até hoje investem na brigada local.

Para evitar a repetição da tragédia causada pelo fogo, o monitoramento constante é chave. A afirmação é feita por Maria de Lourdes Arruda, chefe da brigada voluntária da APA.  

“Cada brigadista cuida da sua área, acompanha. O ser humano é muito imprevisível, e esse fogo é provocado pelo ser humano. Por isso a gente está o tempo todo monitorando a na nossa área para que não aconteça incêndios como no passado”. 

Os brigadistas costumam fazer rondas no perímetro da APA, em especial nos fins de semana quando há grande movimentação de visitantes. “A gente passa na beira do rio conversando com os visitantes, comunicando da proibição do fogo, vendo se não estão fazendo fogueira no chão. Também explicamos que se alguém coloca fogo, isso prejudica quem mora aqui e também a própria natureza”.  

Educação Ambiental 

O brigadista Alvino de Souza é um dos líderes da brigada formada na aldeia indígena Brejão, em Nioaque (MS). O brigadista conta que a comunidade possui uma relação próxima com a equipe, vista como “um suporte, um amparo para as pessoas”.  

Além do combate direto às chamas, os heróis do Pantanal também agem de forma preventiva, atuando como agentes de mudança em suas comunidades. Na equipe coordenada por Alvino, é comum a ida até escolas e a conversa com os moradores da região. “Nossa função também é orientar as pessoas que queimam sem ter a noção do que estão fazendo. A gente orienta as pessoas das famílias, explica para não colocarem fogo em lixo, em lugar que possa sair esse fogo para fora”.  

Em 2019, a região da Aldeia Brejão sofreu com incêndios que destruíram parte das florestas que cercam o local e destruiu lavouras de agricultores. Já este ano, houve um caso de incêndio controlado rapidamente pelos brigadistas com apoio do Prevfogo/Ibama.  

“Quando começou o fogo a gente já percebeu e fomos para cima com brigadistas. Isso foi à tarde, seguimos no trabalho até de noite. Se não tivesse brigadista por perto, talvez o fogo tivesse alastrado muito mais”. 

No trabalho de identificação da origem do fogo, foi possível determinar que as chamas se originaram a partir de uma brincadeira de criança. “O pai de um menino aqui da comunidade comprou foguetinho e ele soltou na beira do brejo. Foi um descuido. É por isso que a gente segue trabalhando e sempre atento. O que a gente já passou para trás não queremos passar agora, isso de queimar nossas matas, nossos campos”. 

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