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Donos de frigorífico admitiram ‘medo de cadeia’ no grupo da família

21 outubro 2020 - 11h25Jones Mário, Mídiamax

A noite do dia 19 de maio de 2017 foi de apreensão na família Chramosta, dona do frigorífico Buriti, instalado em Aquidauana. Naquela semana, a imprensa noticiava o acordo de colaboração premiada com os irmãos Batista, da JBS. Os executivos delataram o envolvimento do abatedouro no esquema de corrupção que culminou na denúncia do MPF (Ministério Público Federal) contra o governador Reinaldo Azambuja (PSDB).

O medo de acabarem presos batia à porta dos Chramosta, que discutiam a possibilidade em grupo de WhatsApp da família.

A Polícia Federal teve acesso às conversas quando apreendeu o celular de Cristina Chramosta, filha de Pavel Chramosta, durante cumprimento de mandados, em setembro de 2018. Era a Operação Vostok nas ruas.

Segundo denúncia apresentada ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) pela subprocuradora-geral da República Lindôra Araújo, o frigorífico Buriti “serviu como principal mecanismo para a lavagem de dinheiro” da organização criminosa chefiada por Azambuja.
Pavel, proprietário da indústria de carnes, disse à polícia que firmava acordos com escritórios de corretagem de gado para intermediar a compra de boi gordo para abate. Pelo combinado, os “marchands” – como são chamados os corretores – ficavam com o dinheiro movimentado pela venda da carne. Por outro lado, o Buriti lucrava com o despojo (miúdos, couro e ossos do gado), negociado com produtores de adubo, sabão, sabonete e até artesanato.

Um dos escritórios parceiros era o Carandá, de José Ricardo Guitti Guimaro, o “Polaco”, e João Carlos de Lemes Siqueira. O primeiro, junto com Azambuja e mais 22 pessoas, está entre os denunciados pelo MPF.

Conforme as investigações, a conta corrente do frigorífico Buriti administrada pelo escritório Carandá recebeu, só em 2015, R$ 12,9 milhões em pagamentos da JBS feitos a partir de notas fiscais “frias”. Segundo o MPF, o dinheiro era propina paga a Reinaldo Azambuja, que teria embolsado R$ 67,7 milhões entre 2014 e 2016. Em troca, o governador garantia isenções fiscais ao grupo dos Batista, com desfalque aos cofres estaduais estimado em R$ 209,7 milhões.

‘Buriti envolvido?’

Com o nome do frigorífico no noticiário, Cristina Chramosta foi ao grupo da família no WhatsApp para entender o motivo. O MPF acredita que o diálogo que se desenvolveu a partir de então faz referência à atuação do Buriti no esquema.

Além disso, a denúncia indica que as conversas provam “pleno conhecimento” de Pavel e Daniel Chramosta, pai e filho, sobre as irregularidades nos pagamentos feitos pela JBS ao abatedouro. Os dois estão entre os denunciados ao STJ.

Mensagens reproduzidas de denúncia do MPF. Foto: ilustrativa

A imagem reproduzida ao lado, bem como a próxima, é meramente ilustrativa. O conteúdo das mensagens, porém, é verdadeiro e foi extraído da denúncia do MPF. Apreendido, o celular de Cristina Chramosta passou por perícia, que deu origem a um lado anexado aos autos da ação penal já conclusa para decisão do ministro do STJ Félix Fischer.

A subprocuradora-geral da República Lindôra Araújo destaca na denúncia a preocupação dos Chramosta com a possibilidade de prisão. O receio em falar sobre o assunto no celular também é evidenciado. Em outro trecho, Daniel deixa claro o papel da indústria de carnes no arranjo de Reinaldo Azambuja. O diretor diz que o Buriti é “laranja” no esquema.

Eduardo Chramosta, também filho de Pavel, entra na conversa e garante que a família não era beneficiada pela negociata. Eduardo morreu em acidente na BR-262 três dias depois de trocar aquelas mensagens no WhatsApp. Daniel ainda descreve que o dinheiro recebido pela JBS a partir das notas frias era sacado e entregue a Polaco, que se encarregava de levar ao “pessoal do governo”.

Relatório da Polícia Federal no bojo do inquérito 1190, que deu origem a denúncia do MPF, indica que parte da propina paga na conta administrada pelo escritório Carandá era transferida para uma conta própria do Buriti no banco Sicredi. De lá, o valor seria sacado e levado a Polaco, que entregava o dinheiro a intermediários de Azambuja.

Investigadores rastrearam a saída de R$ 856,8 mil da conta do Carandá para a do Buriti em datas próximas aos pagamentos da JBS.

Dívida

As conversas obtidas pela Polícia Federal também mostram que a emissão das notas frias para a JBS teria começado por causa de uma dívida de Polaco com o frigorífico.

Na versão de Daniel, corroborada pelo depoimento de ex-funcionário do Buriti, o cancelamento de notas fiscais teria gerado débito de R$ 600 mil em ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) ao abatedouro.

Polaco teria pedido o cancelamento das notas em março de 2014, a fim de driblar o pagamento do imposto. As notas eram suspensas assim que o caminhão deixava o frigorífico carregado com a carne. A fraude contava com a participação de um funcionário da indústria.

Mensagens reproduzidas de denúncias do MPF. Foto: Ilustrativa

A família Chramosta descobriu o golpe e, como narrou Daniel no grupo de WhatsApp, colocou Polaco “na parede”, exigindo uma solução. A saída apontada pelo corretor para recuperar o desfalque seria tirar notas falsas para a JBS e, assim, entrar no esquema chefiado pelo governador.

Além das conversas de aplicativo, uma tecnologia mais primitiva também colocou os Chramosta na mira da Polícia Federal, mais precisamente Pavel. Os investigadores identificaram chamadas telefônicas entre o dono do frigorífico e Polaco feitas nos mesmos dias das entregas de propina em dinheiro a intermediários de Reinaldo Azambuja. Para o MPF, as ligações seriam para confirmar o repasse dos valores.

A denúncia alega que as ligações de Pavel Chramosta coincidem com seis ocasiões em que foi possível constatar, via dados de localização a partir de estações telefônicas, encontros entre Polaco e destinatários do dinheiro em Campo Grande. Nas datas, R$ 1,1 milhão foi sacado das contas pessoais do corretor, do escritório Carandá ou do frigorífico Buriti.

Denunciados

O MPF denunciou ao STJ o governador Reinaldo Azambuja, os irmãos Joesley e Wesley Batista, da JBS, e mais 21 pessoas por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A Polícia Federal, que investigou o esquema na Operação Vostok, havia indiciado o tucano e mais 20 em julho deste ano.

Para o MPF, Azambuja se valeu da posição de governador para comandar a organização criminosa. A denúncia da subprocuradora-geral da República Lindôra Araújo pede, além da condenação pelos crimes, a perda do cargo de Reinaldo e de todos os demais envolvidos que exercem funções públicas. Além disso, requer pagamento de R$ 277 milhões de indenização por danos morais coletivos.

A Polícia Federal havia indiciado, em julho deste ano, Reinaldo Azambuja e o filho, Rodrigo Souza e Silva, bem como mais 20 pessoas. O MPF atestou a existência de provas e, com isso, apresentou a denúncia. Caso o STJ aceite, os denunciados passam à condição de réus.

Outro lado

A reportagem procurou as defesas dos Chramosta, de Reinaldo Azambuja e de João Ricardo Guitti Guimaro. Somente a primeira respondeu e manifestou que “as conversas de WhatsApp nada mais comprovam além do que todos sabiam pela televisão e por ouvir dizer, nada além disso”. Além disso, reforçou que Pavel e Daniel não foram denunciados por corrupção, mas sim, por lavagem de dinheiro e organização criminosa.

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